Lembro-me quando eu era adolescente. Na verdade, era um tempo horrível. Para começar, minha cara parecia um chokito, de tanta espinha. Era daqueles caras do fundão, meio sem popularidade. E, para piorar, me apaixonava muito fácil. Coisa de duas, três vezes por mês. Mas o pior é que sempre levei fora!

Sempre que levava um fora, ficava desiludido, triste pra caramba. Depois, olhava para o meu ex-objeto de amor (platônico, no caso) com outros olhos. Primeiro de raiva, depois de pena, por ter perdido alguém como eu (sério!). De qualquer forma, eram paixões de adolescente, mesmo, nada que durasse. Tanto é que nem me lembro mais das moças.

Paixão é isso mesmo. Característica de um tempo de amadurecimento de nossas vidas. E deve permanecer naquele tempo.

A Bíblia nos estimula a sempre buscarmos o amadurecimento. Quando o Senhor diz Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celestial (Mt 5.48), a palavra perfeito, no grego, é teleiós, que significa completo, integral, amadurecido, maduro. Se a Bíblia nos diz para irmos numa direção, não entendo porque grande parte da igreja evangélica brasileira insiste em ir à direção oposta. É uma paixonite aguda que acomete nosso povo. Todo mundo está apaixonado. Tem aqueles que são adoradores apaixonados, derretidos, adoecidos, amortecidos, babões de amor por Deus. Não é à toa que há pesquisadores que consideram o amor e a loucura parentes próximos.

Sinceramente, acho ridículo homens barbudos gritando fininho e pulando feito alucinados gritando “te amo meu Noivo!”. Parece coisa de Parada Gay, não de igreja cristã. Realmente a Bíblia compara a Igreja com a Noiva. Mas daí querer sair saltitando de véu e grinalda é loucura e bichice demais para minha pobre cabeça!

O que a Bíblia nos diz é que devemos amar a Deus acima de todas as coisas (Mt 22.37). Amor é bem diferente de paixão. Um casamento estabelecido na paixão sexual, por exemplo, dura pouquíssimo tempo, porque só o sexo não segura a barra de um convívio duradouro. Paixão é coisa passageira, de momento. Coisa de criança, de adolescente. Seguimos buscando a estatura do homem feito, adulto (Ef 4.13). Então, vamos deixar de modismos infantis (1Co 13.11) e realmente amar ao Senhor, largando essa nossa capa de frieza e distanciamento dEle. Mesmo porque não adianta e pega muito mal.

Ame ao Senhor. Não seja apenas apaixonado por Ele.

21Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. 22Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitos milagres? 23Então lhes direi claramente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade (Mt 7.21-23). Essas palavras de Jesus nunca foram tão atuais como hoje.

Foi descoberto um esquema de corrupção do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, aquele amigão do ACM e que meteu a mão no painel eletrônico do Senado, quando era líder do governo FHC no Senado, e que estava sendo cotado para o cargo de vice na chapa presidencial de José Serra. Não seria nada de alarmante nessa nossa política rasteira e formada de roedores, não fosse o fato inusitado de um dos integrantes da quadrilha de ladrões ser evangélico (bem, não tão inusitado assim, vamos ser sinceros) e ter um vídeo onde ele faz uma oração de agradecimento ao sinhô Gezuis pela graça alcançada de enfiar a mão no cofre alheio.

Como é triste ver que, hoje em dia, a ética protestante é apenas parte do título de livro do Max Weber. Infelizmente, as pessoas não vão mais às igrejas para aprender da Palavra e colocar em prática o que ouvem, mas sim para ter um êxtase, uma catarse, um descarrego emocional e psicológico, e seguem suas vidinhas medíocres em total divórcio com a Palavra.

É a secularização em seu grau mais sofisticado, quando aliena a fé dentro de seu centro irradiador – no caso, a igreja.

É a risada final de Karl Marx que dizia que a religião é o ópio do povo. E o povo, nessa maconha santificada que se tornou a religião evangélica no Brasil, continua em sua marcha de humilhação do verdadeiro Evangelho.

É Screwtape, orgulhoso de seu pupilo Wormwood, a quem aconselhava como desviar um cristão dentro da igreja.

Enfim, é a declaração formal de que a igreja evangélica brasileira cada vez menos tem a ver com o Evangelho de Jesus, apesar de ainda haver sobreviventes (ou, usando um termo bíblico, remanescente fiel) nela, e que, para sobreviver, se alia até ao belzebu, sem tampar o nariz.

Colaboração

27/11/2009

Gente boa, agora serei também colaborador do Genizah Virtual. Como se não bastasse o pessoal do site da Revista Ultimato, que tem aceitado minhas “heresias”, agora estendo meus tentáculos pela blogosfera afora! Ô grória! Como diria o Cérebro para o Pink, vamos dominar o mundo!

UPDATE

O pessoal do Genizah fez um vídeo com a minha paródia de Assassinaram o camarão. Ficou muito bom!

Ao ler o blog Genizah Virtual (que recomendo dicumforça), vi que as patetices gospelentas são infinitas, e a vergonha na cara, microscópica. Não sei porque mas, com isso, me lembrei da minha infância – talvez porque muitos dos popstores têm a maturidade de um menino de cinco anos. Na minha infância, gostava muito dos Trapalhões, em especial daquele que já morreu há quinze anos mas que era o cara ali, o Mussum (Renato Aragão, hoje está provado, não é isso tudo o que queria demonstrar). Acontece que o Mussum tinha um trabalho paralelo aos Trapalhões. Além de cabo da Força Aérea Brasileira, era sambista e criou Os Originais do Samba. Sempre que os Originais se apresentavam na TV eu prestava atenção, principalmente por causa do Mussum – aliás, Antônio Carlos Bernardes Gomes.

Uma música deles que ficou bem famosa é Tragédia no fundo do mar (Assassinaram o camarão). Parece letra de música infantil, mas não nos esqueçamos que era tempo negro de ditadura militar, portanto não havia liberdade para zombar claramente de nossas mazelas sociais.  Portanto, juntando o que leio no Genizah com minhas lembranças do Mussum, fiz uma paródia com Assassinaram o camarão.

 

ASSASSINARAM A PREGAÇÃO

Assassinaram a pregação

Assim começou a tragédia dentro do seu lar

Feliciano teve a revelação

Siri canta bem lá na praia

Pastor só faz rodopiar

Mas o Soares que não se apavora

Disse: eu que vou determinar

Eu vou mandar grana pro Malafaia

Vocês vão ver, ninguém vai me segurar

Eu vou mandar grana pro Malafaia

Vocês vão ver, ninguém vai me segurar


Logo ao saber da notícia a vergonha tratou de se mandar

Até o Terra Nova também foi se arrumar

Malandro foi o Santiago

Ungiu lenço e voou

Tudo o que hoje sei nas igrejas se findou

Malandro foi o Santiago

Ungiu lenço e voou

Tudo o que hoje sei nas igrejas se findou

 

Pra quem quiser acompanhar a paródia com a música original, lá vai o vídeo dos Originais do Samba:

Piada pronta

26/11/2009

José Simão, colunista da Folha de S. Paulo (dentre outros jornais) sempre diz que o Brasil e o país da piada pronta. Tenho que concordar com ele, ao ler a notícia de que a Igreja (sic) Universal do Reino de deus (com minúscula mesmo) agora tem “ungido” lubrificantes KY para que a vida sexual do casal seja mais abençoada.

É ou não é piada pronta? É a própria definição do termo “sacanagem” em toda sua extensão!

Cada vez que leio uma patacoada dessas me sinto mais cansado, triste e infeliz. Não foi para isso que a obra de Cristo foi consumada na cruz. Não foi para isso que milhares, ou mesmo milhões de cristãos deram suas vidas (muitas vezes literalmente) em arenas, perseguições do Estado, fome e outras restrições. Não foi para isso que Hus, Savonarola, Wycliffe, Lutero, Calvino, Beza, Knoxx e outros arriscaram seus pescoços. Não foi pra isso que muita gente abandona seus lares, famílias e amigos e se arriscam mundo afora pregando o Evangelho.

Infelizmente a igreja evangélica foi tomada de assalto. Pouca coisa resta dela que permita usar o adjetivo “evangélica”. Está mais para um centro de entretenimento religioso, ou de auto-ajuda.

Não podemos mais ficar calados, em nome de uma pretensa “unidade”. Que unidade há entre Deus e os ídolos (2Co 16.16), ou entre luz e trevas? Que unidade há entre Edir Macedo, Silas Malafaia, Marco Feliciano, Waldemiro Santiago e cristãos genuínos?

O apóstolo (verdadeiro) Paulo certa vez escreveu à igreja asiática de Corinto: 9Já por carta vos escrevi que não vos comunicásseis com os que se prostituem; 10com isso não me referia à comunicação em geral com os devassos deste mundo, ou com os avarentos, ou com os roubadores, ou com os idólatras; porque então vos seria necessário sair do mundo. 11Mas agora vos escrevo que não vos comuniqueis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com esse tal nem sequer comais. 12Pois, que me importa julgar os que estão de fora? Não julgais vós os que estão de dentro? 13Mas Deus julga os que estão de fora. Tirai esse iníquo do meio de vós. (1 Co 5.9-13). É hora, portanto, de deixar esses falsos profetas falando às paredes e voltar nossos ouvidos ao Senhor.

Poesia

25/11/2009

De volta a Rondônia, retomando a rotina, retomo também o blog. E resolvi fazer poesia. Na verdade, eu já tinha composto antes, na época em que tocava com o Tribal – as letras da banda eram, em sua maioria, minhas. Mas agora é diferente, porque eu me preocupo com a rima! Queria ser um cara fera como um Chico Buarque ou um Carlos Drummond de Andrade, mas infelizmente (ou felizmente, sei lá), sou só eu. Então, espero que curtam essa nova faceta minha.

NOITE ESCURA

Essa noite escura que avança sobre minha alma

Desinventa a ilusão da minha autocracia

Que fazia meu ego explodir em satisfação

Em razão da Verdade que já jazia

 

Essa noite escura que avança sobre minha alma

Teima em desidolatralizar meus conceitos

Que já foram preceitos tão caros

Porém raros os momentos à justiça afeitos

 

Essa noite escura que avança sobre minha alma

Me mostra o quanto sou pó

E um nó a ser desfeito

No sujeito em que me tornei só

 

Essa noite escura que avança sobre minha alma

Desmascara um deus mesquinho

Verdadeiro ninho de aleivosia

Da teimosia de um transcendente pequenino

 

Essa noite escura que avança sobre minha alma

Revela um cristo de pau

Tal como o conteúdo de um caixão

Sem paixão como uma submersa nau

 

Essa noite escura que avança sobre minha alma

Demonstra a insensatez da falsa religião

Como um peão de um esquema maior

Plantando horror em minha extensa solidão

 

Essa noite escura que avança sobre minha alma

Não sufocará a luz permanente

Que se faz premente face à desolação

Que gruda no chão da existência intermitente.

Cá estou eu. Pelo horário de Rondônia, já passa de meia noite. No horário de Brasília, quase três da manhã. Corrigindo atas e alguns documentos, correndo porque viajo hoje à noite para rever amigos queridos em Belo Horizonte e lá resolver alguns assuntos.

Falando em amigos, há momentos em que o coração aperta de saudades deles. Os amigos são pequenos presentes que Deus nos dá para aliviar a carga da nossa caminhada, para sermos aperfeiçoados e sermos instrumento de bênção na vida do outro.

Há uma amiga em especial que gosto muito. Ela, na verdade, é uma amiga minha e da Mônica, minha esposa, apesar de nos comunicarmos mais via orkut. Mas é uma pessoa preciosa e especial, daquelas que você tem orgulho de compartilhar a amizade, os sonhos e os medos. Isso sem falar no talento – aliás, parece que isso é genético, porque fiquei fã do vozeirão do irmão dela, o Rogério, e da voz doce da cunhada, a Celi.

Bom, vou deixar de lero-lero e mostrar a vocês um vídeo da minha mana Gláucia Carvalho. Realmente, uma voz (e uma alma) muito bonita.

Quando eu estava fazendo esse blog, estive pensando nas categorias nas quais eu classificaria os assuntos. Como vejo que há muita manipulação religiosa por aí, resolvi colocar os textos onde abordasse esse tema sob a categoria “vida de gado”.

Gosto muito do cantor Zé Ramalho. Acho suas letras muito belas, algumas bem surreais (tente ler a letra de “Avohai” sem o acompanhamento da música e você vai entender o que falo). Uma de suas músicas mais famosas e marcantes é “Admirável gado novo”, título obviamente influenciado pela obra de Aldous Huxley, “Admirável mundo novo” (quem puder ler, é muito bom). Surgida no tempo da ditadura, a música do Zé Ramalho apontava para os graves problemas sociais e a alienação do povo. Ouvida hoje, se mantém atual.

Porém, em um período de grave e terrível crise em minha vida (se der depois eu conto) comecei a ouvir essa música pensando não na sociedade brasileira, mas no estado atual da igreja evangélica. Com tudo o que vemos, ou seja, a alienação reinante, a biblicidade em baixa, a falta de preparo dos pastores, bispos, apóstolos e outros cargos (daqui a pouco vai aparecer o semi-querubim), o engano dos espertos e a vontade de ser enganado dos tolos, Zé Ramalho faz um retrato da nossa realidade eclesial.

Vejam o vídeo e concluam por vocês mesmos.

pl122Atualmente há grande discussão, na mídia e na internet, sobre o Projeto de Lei 122/06, que tramita no Congresso Federal. Para quem não sabe, é o projeto de lei que criminaliza a homofobia.

Muita gente tem gritado, clamado, feito o escarcéu sobre o tema. Há muita ameaça no ar, muita manipulação, muita desinformação, muita alienação. Há gente que parece querer promover uma cruzada contra os gays e contra o congresso por simplesmente permitir a tramitação desse projeto.

Quando eu vejo gente que esbraveja feito cão hidrófobo na TV, babando na gravata, fico pensativo. Geralmente ataques barulhentos de moralismo cheiram a hipocrisia para mim. Será que haveria o mesmo ataque moralista contra as jogadas politiqueiras feitas nos bastidores denominacionais? Será que haveria a mesma indignação feita contra as injustiças cometidas em nome de uma suposta ação do Espírito Santo?

Entendo que o homossexualismo é um pecado, pois agride e transgride o projeto primordial de Deus para nós, que é nossa identidade, que passa, primeiramente, por nossa sexualidade. E particularmente sou contra essa lei. Entendo que ela cria duas classes de cidadãos nesse país, o que é contrário à nossa Constituição. Se um gay se sente ameaçado, ele tem todas as ferramentas legais e constitucionais para se defender, como qualquer outro cidadão. Mas também acho que essa histeria toda acerca do projeto de lei esconde algo mais importante.

A igreja evangélica brasileira, ou seja, suas inúmeras instituições (não sei se o IBGE já fez o levantamento de quantas denominações há no Brasil; só presbiterianas somos cinco), cada vez mais perde sua voz profética. E ganha uma nova voz, a voz midiática. Essa voz propaga aquilo que somente interessa a alguns evangélicos e ecoa na mente de milhões por esse Brasil. Essa voz midiática interessa-se apenas por seu umbigo, ou seja, preocupa-se apenas naquilo que há no interior da igreja evangélica.

Portanto, a preocupação de alguns gospel-midiáticos não é acerca da inconstitucionalidade da lei, mas sim o que ela pode influenciar nos intestinos das organizações. Estão preocupados não em falar de Jesus para os gays, mas sim na hipótese de serem obrigados a realizarem casamentos homossexuais nas igrejas. Estão preocupados nos pretensos processos que podem levar (e, consequentemente, na grana que irão perder) por não aceitarem gays na membresia de suas instituições.

Será que os gays se importam conosco a ponto de quererem se filiar a uma de nossas organizações? Acho pouco provável. Somos tão irrelevantes e passamos uma imagem tão negativa que não é de interesse dos gays de andarem conosco. E, sejamos francos, também não é de interesse da maioria dos evangélicos andar com eles. Somos santos demais, puros demais, exaltados demais para andar com reles pecadores.

Só que Jesus andava com pecadores. Jesus não focava Seu ministério em combater casamentos gays, mas sim em atacar a frieza e a falsidade dos religiosos de Sua época. Jesus Se preocupava mais com gente sofrida e enganada pela (e na) vida do que com pretensos moralismos vazios. Jesus pregava o Reino para os pobres e curava os doentes, e não pregava riqueza para gananciosos e o ódio aos diferentes. Deve ser porque Jesus não era evangélico.

melancolia000Segundo li aqui, 47% dos pastores sofrem algum transtorno mental. Na maioria, são problemas de insônia, ataques de ansiedade e depressão, gerados por questões financeiras, doutrinárias, de expansão numérica e de relacionamento com colegas e superiores hierárquicos. Ao mesmo tempo, acabei também de ler Feridos em nome de Deus. É um livro-reportagem cru e direto sobre o problema de abuso espiritual nas igrejas. Ken Blue, em Abuso espiritual (se quiser comprar, é aqui), é mais contundente e mais profundo ao tratar do problema.
O que entendo é o seguinte: há pastores deixando igrejas doentes, e há igrejas matando (literalmente, às vezes) pastores. E há a cereja do bolo, que é pastores doentes adoecendo ainda mais igrejas já enfermas. Onde vamos parar? Não sei. Só sei que tenho medo de querer descobrir. Mas acho que o percentual de pastores mentalmente enfermos é muito conservador. Pelas minhas observações, acho que é bem maior que apenas 47%.