Descobri que não sou um vencedor. A igreja evangélica, ultimamente, vem batendo incessantemente nesta tecla: se você é crente, é obrigatoriamente um vencedor. Será?
Bom, tive algumas vitórias bem rumorosas, outras discretas. A algumas, credito a Deus; a outras, ao meu esforço, capacidade e empenho próprios. Também tive alguns fracassos retumbantes, e outros silenciosos. A alguns, credito ao mal externo (o diabo e o mundo); a outros, ao meu mal interno (minha carne e minha inabilidade).
Isso faz de mim uma pessoa comum. E é isso que a igreja evangélica, com todo o seu discurso triunfalista, quer mascarar, esconder. Quer criar, a todo custo, um exército de pessoas de bem com a vida, sem dores ou sofrimentos, usufruindo toda a alegria do céu aqui e agora. Deixaram todo e qualquer traço de epicurismo (ou mesmo estoicismo) para trás e abraçam, sem nenhuma restrição, o corpo moreno, suado e sexy do hedonismo. Aliás, essa mania de querer perseguir a felicidade e todo custo tem formado uma geração de gente estupidificada, alienada, egocêntrica e insensível. Somos um simples reflexo de nossa sociedade doente.
Quando vemos a Bíblia, não encontramos nela nenhum traço daquilo que é apregoado hoje em dia. Os vencedores que a Bíblia retrata em Hb 11 são pessoas comuns, usadas por Deus, mas que passaram tremendas angústias, ou tiveram até mesmo mortes violentas. O profeta Isaías teve seu corpo serrado ao meio; Tiago morreu no fio da espada; Paulo foi decapitado; Pedro, segundo nos conta a tradição, crucificado de cabeça para baixo. Isso sem falar de Jesus que, por desafiar todo o sistema religioso putrefato de Seu tempo, foi pendurado na cruz, morte abjeta àqueles dias. Isso nos demonstra que todos aqueles que ousam desafiar o sistema religioso putrefato de nosso tempo também terão destino semelhante.
Sim, Jesus disse que passaríamos por aflições no mundo. Mas também disse que Ele venceu, não nós, e Sua vitória sobre o mundo foi a execução de seu propósito em Sua morte. Sim, a Bíblia afirma que somos mais que vencedores. Mas o contexto de Rm 8 não me autoriza a ser irresponsável e a apregoar um estilo de vida róseo. Em todas estas coisas, diz Paulo, somos mais que vencedores em Jesus. E que coisas são essas? Trata-se do mesmo argumento de Jesus, ou seja, a vitória sobre o mundo não é um carrão na garagem e uma vida livre de problemas, mas a nossa fé (1Jo 5.4). Permanecer fiel, mesmo debaixo de uma saraivada de balas por todos os lados, mesmo depois que “companheiros de jornada” te abandonam, é uma vitória, e daquelas bem sobrenaturais.
Portanto, da próxima vez que resolver ouvir um daqueles mantras pegajosos que exaltem incessantemente o seu ego e que se esquecem de mencionar o Filho, pense em Jesus morrendo como um bandido, no profeta Oséias se casando com uma prostituta, em Jeremias perseguido por Pasur e jogado em uma cisterna. Mas, principalmente, pense como apostatamos de modo ruidoso e contínuo da simplicidade do Crucificado, indo atrás da doce mensagem de Baal apregoada por pastores-vendedores-popstars da moda. Caso não sinta nenhum arrependimento ou tristeza com isto, é sinal que Javé não faz mais diferença, e Baal é sua nova realidade.
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Estou voltando, ainda mancando. Mas voltando.
Admito que sou um nerd. Gosto bastante de ficção científica, de assistir a seriados de desenhos animados, cujos enredos discuto animadamente com gente do meu nível intelectual, o que no caso são minhas filhas de 5 e 8 anos. Não leio tanto gibi quanto gostaria, mesmo porque aqui em Rondônia não chegam essas coisas do capeta e, quando chegam, ou são muito defasadas ou muito caras, quando não são as duas coisas ao mesmo tempo.
Uma série que gosto muito de assistir é Star Trek. Série, não. Séries. Jornada nas Estrelas já pariu onze filmes, uma série de desenhos animados e 4 séries derivadas dentro do universo da Federação Unida dos Planetas (A Nova Geração, Deep Space 9, Voyager e Enterprise), além de livros e revistas em quadrinhos. E já assisti a todos, sem exceção.
Mas uma coisa que gosto também é de teologia. Lembro-me que, ao assistir a uma das séries, ficava me perguntando sobre o alcance do sacrifício da cruz no universo: seriam também os alienígenas pecadores necessitados do perdão de Deus, ou será que eles ainda não experimentaram a desgraça do pecado? Bom, depois a gente volta no assunto.
Mas estive pensando nesse nosso mundinho gospel comparado ao mundinho trekker. Sei que Gene Roddenberry, criador da série, era ateu e avesso ao cristianismo. Mas, ainda assim, quem sabe, podemos fazer um exercício de imaginação com os personagens da série original, que é a mais conhecida. Como seria se eles fossem membros de igrejas evangélicas?
Capitão Kirk: charmosão, sempre dava um vôo rasante em cima da mulherada. Sempre se dá bem, apesar de apanhar um bocado. E gosta de comandar, de um jeito bem “apostólico”, ou mesmo “patriarcal”. Acho que é um modelo de neopentecostal.
Spock: sempre lógico, o vulcano não apresenta emoções, que são contrárias à sua natureza, apesar de ser meio humano. Sempre resolve tudo na base da racionalidade. Tenho pra mim que Spock era calvinista.
McCoy: sempre reclamão, brigava o tempo todo com Spock. Sempre discutia também com o capitão. Surtou certa vez ao aplicar em si mesmo, acidentalmente, um composto medicinal (nem me perguntem o nome) no episódio A cidade à beira da eternidade (um dos melhores do seriado original, por sinal). Possivelmente um crente “alternativo”, desses que abominam igreja (mas que formaram uma só para si mesmos), e que estão sempre no caminho, mas ainda não chegaram à casa do Pai, ou mesmo a alguma conclusão lógica isenta de sofismas.
Uhura: a primeira negra a protagonizar um seriado sem estar no papel de empregada ou escrava. Tratava das comunicações. Não falava muito, mas era eficiente no que fazia. Um tipo de batistão.
Chekov: o garotão da turma. Sempre empolgadão, dizendo que todas as invenções importantes da humanidade eram, na verdade, de gente da Rússia, seu país natal. Como sempre dizia coisas do passado, mas ninguém dava bola para o que ele falava, talvez ele fosse presbiteriano independente mesmo.
Scott: o engenheiro chefe da Enterprise. Eficiente, gostava de conhecer a fundo a parte técnica da nave, mas não tinha muito tempo para curtir a viagem. De vez em quando ficava de porre com os uísques que tomava lembrando a Escócia natal. Talvez um membro de alguma igreja liberal.
Sulu: tentei pensar em alguma coisa pra ele, mas não consegui. Talvez por ele entrar mudo e sair calado dos episódios, ou por recentemente assumir a homossexualidade (o ator, não o personagem), ele seria algum GG (gospel gay).
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Um mal está no declarado campo do Senhor, tão grosseiro em seu descaramento, que até o mais míope dificilmente deixaria de notá-lo durante os últimos anos. Ele se tem desenvolvido em um ritmo anormal, mesmo para o mal. Ele tem agido como fermento até que toda a massa levede. O demônio raramente fez algo tão engenhoso quanto sugerir à Igreja que parte de sua missão é prover entretenimento para as pessoas, com vistas a ganhá-las.
Da pregação em alta voz, como faziam os Puritanos, a Igreja gradualmente baixou o tom de seu testemunho, e então tolerou e desculpou as frivolidades da época. Em seguida ela as tolerou dentro de suas fronteiras. Agora as adotou sob o argumento de atingir as massas.
Meu primeiro argumento é que prover entretenimento para as pessoas não está dito em parte nenhuma das Escrituras como sendo uma função da Igreja. Se este é um trabalho Cristão, porque Cristo não falou dele? “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura.” (Marcos 16:15). Isto está suficientemente claro. Assim teria sido se Ele tivesse adicionado “e proporcionem divertimento para aqueles que não tem prazer no evangelho.” Nenhuma destas palavras, contudo, são encontradas. Não parecem ter-lhe ocorrido.
Então novamente, “E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores… para a obra do ministério” (Efésios 4:11-12). Onde entram os animadores? O Espírito Santo silencia no que diz respeito a eles. Foram os profetas perseguidos porque divertiram o povo ou porque o rejeitaram? Em concerto musical não há lista de mártires.
Além disto, prover divertimento está em direto antagonismo com o ensino e a vida de Cristo e de todos os seus apóstolos. Qual foi a atitude da Igreja quanto ao mundo? “Vós sois o sal” (Mateus 5:13), não o doce açucarado – algo que o mundo irá cuspir e não engolir. Curta e severa foi a expressão: “deixa os mortos sepultar os seus mortos.” (Mateus 8:22) Ele foi de uma tremenda seriedade.
Se Cristo introduzisse mais brilho e elementos agradáveis em Sua missão, ele teria sido mais popular quando O abandonaram por causa da natureza inquiridora de Seus ensinos. Eu não O ouvi dizer: “Corra atrás destas pessoas, Pedro, e diga-lhes que nós teremos um estilo diferente de culto amanhã, um pouco mais curto e atraente, com pouca pregação. Nós teremos uma noite agradável para as pessoas. Diga-lhes que certamente se agradarão. Seja rápido Pedro, nós devemos ganhar estas pessoas de qualquer forma.” Jesus se compadeceu dos pecadores, suspirou e chorou por eles, mas nunca procurou entretê-los.
Em vão serão examinadas as Epístolas para se encontrar qualquer traço deste evangelho de entretenimento! A mensagem delas é: “Saia, afaste-se, mantenha-se afastado!” É patente a ausência de qualquer coisa que se aproxime de uma brincadeira. Eles tinham ilimitada confiança no evangelho e não empregavam outra arma.
Após Pedro e João terem sido presos por pregar o evangelho, a Igreja teve uma reunião de oração, mas eles não oraram: “Senhor conceda aos teus servos que através de um uso inteligente e perspicaz de inocente recreação possamos mostrar a estas pessoas quão felizes nós somos.” Se não cessaram de pregar a Cristo, não tiveram tempo para arranjar entretenimentos. Dispersos pela perseguição, foram por todos lugares pregando o evangelho. Eles colocaram o mundo de cabeça para baixo (Atos 17:6). Esta é a única diferença! Senhor, limpe a Igreja de toda podridão e refugo que o diabo lhe tem imposto, e traga-nos de volta aos métodos apostólicos.
Finalmente, a missão de entretenimento falha em realizar os fins desejados. Ela produz destruição entre os novos convertidos. Permita que os negligentes e escarnecedores, que agradecem a Deus pela Igreja os terem encontrado no meio do caminho, falem e testifiquem. Permita que os oprimidos que encontraram paz através de um concerto musical não silenciem! Permita que o bêbado para quem o entretenimento dramático foi um elo no processo de conversão, se levante! Ninguém irá responder. A missão de entretenimento não produz convertidos. A necessidade imediata para o ministério dos dias de hoje é crer na sabedoria combinada à verdadeira espiritualidade, uma brotando da outra como os frutos da raiz. A necessidade é de doutrina bíblica, de tal forma entendida e sentida, que coloque os homens em fogo.
Texto de Charles H. Spurgeon, que pode ser encontrado aqui. Uma triste nota é que, se a coisa já andava feia no século XIX, no século XXI desandou de vez.
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O filósofo polonês Leszek Kolakowski, no final dos anos 1950, falou sobre o Natal com tanto humor e perspicácia que não resisto a apresentar uma versão abreviada de seu relato. Ei-la.
Em um certo 25 de dezembro, o astrólogo-chefe de Herodes foi até a casa de seu mestre para lhe anunciar o nascimento, sob o signo de Saturno, de uma criança cujo destino era se tornar rei dos judeus. Ele acrescentou, sem tirar qualquer conclusão disso, que o poder de Herodes estava ameaçado por esse acontecimento. O rei, um tanto cético, considerando os personagens modestos aos quais Saturno geralmente oferece sua proteção, perguntou assim mesmo, por medida de precaução, onde essa criança havia nascido, antes de dispensar o astrólogo e reunir seu conselho.
Os quatro maiores dignitários do reino, cada um deles representante de uma perspectiva filosófica bem distinta, faziam parte dessa alta instância. Herodes lhes anunciou que, diante da impossibilidade de determinar de qual criança se tratava exatamente, uma vez que os astros se calavam sobre esse assunto, ele decidiu massacrar todos os recém-nascidos da cidade de Belém. E sobre isso os quatro conselheiros foram convidados a se exprimir, um de cada vez.
O primeiro era um estoico. Ele ressaltou que o destino não podia ser modificado, e que, portanto, era melhor deixar todos aqueles bebês em paz, entregando a questão para a divindade. De fato, se ela havia decidido o nascimento de um novo rei dos judeus, o fato poderia ser lamentável, mas nada poderia alterar o curso das coisas. Como dizem, se te derem limões, faça uma limonada.
O segundo, um epicurista, refutou a inevitabilidade do destino, e argumentou que o crime coletivo poderia talvez ter o efeito desejado: eliminar um concorrente. Mas ele aceitou a conclusão de seu confrade, por ser imoral atacar frágeis criaturas que não dispunham de nenhum meio de defesa.
O terceiro, um moralista religioso, também negou a predestinação, e aceitou a ideia de que o crime poderia salvar o poder real, mas ressaltou que o assassinato não seria vantajoso a longo prazo, em razão da justiça divina, que geralmente não era favorável ao extermínio de recém-nascidos. Portanto, se Herodes massacrasse inocentes, após sua morte estaria sujeito a um castigo perto do qual a perda do poder seria uma ninharia.
Nesse ponto da história, o caso decididamente não se encaminhava a favor dos planos de Herodes. No entanto, ainda restava o quarto conselheiro, um político (ou, se preferirem, um sofista), que argumentou de uma forma totalmente diferente de seus predecessores. Herodes sabia, por experiência própria, que podia contar com ele. É absurdo, ele disse, afirmar que os recém-nascidos são incapazes de se defender, pois todo inimigo morto está exatamente na mesma situação: na verdade, se ele fosse capaz de se defender, não teria sido morto. Portanto, não há nenhuma diferença entre as crianças, por mais jovens que sejam, e as hordas de legionários cobertos de aço. Ademais, na luta pelo poder, tudo é permitido. No final, para completar, o político lembrou que o princípio da responsabilidade coletiva é o mesmo do pecado original: Adão e Eva não seriam na verdade os únicos responsáveis por inúmeras tragédias de inúmeras gerações? Qual a diferença entre a história do mundo e o assassinato coletivo anunciado por Herodes?
O rei, satisfeito, fechou o conselho, declarou todos seus conselheiros favoráveis ao massacre, e foi executar seu plano. A sequência, todos sabem: os recém-nascidos foram mortos a golpes de espada, enquanto a pequena criança visada tomou a estrada para o Egito montada em um jumento.
O epílogo, em compensação, é contado com muito menos frequência, sendo que ele contém a moral de toda a história. Ele ocorre dezenas de anos mais tarde, nas chamas do inferno, onde Herodes encontra seus quatro conselheiros acompanhados do astrólogo. Cada um levava no peito, segundo a tradição infernal mais difundida, uma placa indicando o crime cometido.
Para Herodes e o político, o caso era simples: ambos foram condenados por infanticídio. O estoico foi condenado por ter professado a doutrina herética do fatalismo e ter propagado um derrotismo que enfraquecia a luta que ele deveria conduzir na Terra pela causa divina. O epicurista foi condenado por ter desdenhado da questão do poder e assim contribuído para a anarquia. Quanto ao moralista religioso, ele foi condenado por ter defendido uma falsa moral, fazendo de Deus um mero contador e se baseando no cálculo das consequências no além dos atos cometidos aqui, e não na verdadeira moral que nasce do amor desinteressado da divindade.
Mas e o pobre astrólogo, vocês dirão, que só relatou aquilo que os astros diziam, por que ele teria sofrido o mesmo destino que os outros cinco? Era isso que ele mesmo não conseguia entender. Eis, então, o que estava escrito em sua placa, e que pode dar lugar a mais de uma reflexão entre os leitores: “Condenado por ter transmitido falsas informações com consequências funestas”. Na verdade, ao anunciar que havia nascido um rei dos judeus, o astrólogo se esqueceu de acrescentar um elemento essencial: esse reino não era deste mundo.
O texto é de Thérèse Delpech, cientista política e filósofa, especialista em questões de defesa, e pode ser achado aqui.
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No ano 2376, a Comunidade Universal Internacional Mundial Intergalática do Reino Feudal Reformado dos Santos dos Últimos Dias precisou fazer nova sucessão acionária. Era um empreendimento enorme, que contava com 6.894.456 sócios, com várias concentrações em cada domingo, e vários campos para as concentrações. Tinha rede de TV, internet, SPA, shopping, campo de paintball. Tinha até mesmo uma moderna livraria, mas a última Bíblia vendida fora há 7 anos atrás, quando o supremo patriarca D. Terranova IV, o divinoso, em associação com o andróide Ratzinger IV (um clone defeituoso do orginal, pois veio com cabelo vermelho), de sua sede sumopatriarcal em Boca Raton, decretou nos altos céus que quem falava por Deus era só ele, sendo proibida a comercialização, leitura e circulação de Bíblias, sob pena de morte, banimento, ostracismo ou ficar assistindo a filmes iranianos, o que for mais cruel.
Mas a direção da Comunidade, feita de pessoas com MBA em agrobusiness e estética facial (era obrigatório naqueles dias), não fora feliz com os dois últimos gospel-entertainers, que é o nome dado a pastores daquele tempo. O penúltimo enlouqueceu com tanta cobrança e tanta falta de apoio e amor que resolveu vender artesanato na Praça Sete em Belo Horizonte; o último achou que era um pelicano e pulou da janela tentando voar, se esborrachando todo.
Como estavam no futuro, resolveram aproveitar as vantagens da tecnologia e comprar uma máquina do tempo, caríssima, que já tinha sido do Marty Mcfly. Como queriam um gospel-entertainer de ponta, resolveram voltar aos tempos antigos, para ver como o pessoal que vivia no tempo daquele livrinho antiquado e proibido se sairia. Conseguiram uma excelente contratação. Mas, antes, o relatório da viagem. E põe viagem nisso!
Relatório 12.5/et
Ano 2376
Eu, Janes de Souza, juntamente com meu colega de direção Jambres Matoso, sob as auspiciosas bênçãos do supremo patriarca (salve! salve!), saímos em nossa incessante busca por um novo gospel-entertainer. Tal tarefa era de altíssimo risco e grande responsabilidade. Precisávamos de alguém que pudesse nos entreter nas noites de domingo, tão cheias de compromisso. Após termos nosso tempo de entretenimento com a riqueza cultural de Faustão Neto, era necessidade nossa a extensão do nosso lazer noite adentro. Como os teatros, circos e cinemas caíram em desuso, só nos restaram as igrejas para nos divertirmos. Como elas estavam no campo do entretenimento desde o início do século XXI, com seus antigos programas humorísticos que faziam piadas com sementes, votos e promessas, conseguiram se manter neste campo com mais facilidade. Mas não tem sido fácil! Portanto, vamos voltar no tempo e arrumar um bom gospel-entertainer! Afinal, como dizia aquela velha canção do nosso hinário, eu quero de volta o que é meu!
Chegamos ao tempo da Criação. Ou pelo menos deve ser isso, tem tanto tempo que não chego perto daquele livrinho que nem me lembro direito. Hum, Adão não serve como gospel entertainer. Tem família pequena, o que facilita os nossos gastos, mas ele descuida muito da dieta.
Vamos adiante. Hum, Elias não serve também. Precisamos de alguém mais moderado, e ele não sabe negociar com aqueles que ficam gritando uga-uga em cima do monte. Pra que será que estão fazendo aquilo? Mais pra frente, mais pra frente.
Eliseu também não serve. Pra começar, o sujeito é careca, e o gospel entertainer deve ter uma boa aparência, já diziam os antigos registros do profeta Silvio, o Santos (1.71). Além disso, também não é bom de conversa, pois logo despachou o sujeito todo manchadinho de branco (tem cara de militar). Aff, ta difícil. Mas com fé na minha fé eu vou conseguir romper o sobrenatural!
Mais adiante… Ah, ali vai dar… não, não vai dar. Jambres me disse que o nome daquele ali é Jeremias. Mas é um sujeitinho inseguro, deprimido, e que ainda fala que Deus o decepcionou! Nosso supremo patriarca (salve! salve!) jamais aprovaria palavras de derrota assim. Afinal, palavras são sementes que geram bens a nosso favor no mundo penicosférico!
Ah, vou mais pra frente. Não gostei de nenhum desses daqui. É o tal de Ló que larga o tio rico (pelo menos ninguém pode reclamar que a mulher dele era sem sal), é o tal de José que não aproveitou a chance de dar uns créus na mulher do Potifar, é um pessoal esquisito, tão diferente da gente!
Ah, a coisa aqui nesse outro tempo também não ta muito diferente. Olha aquele ali! Largou a banca de dinheiro para ir atrás daquele barbudo que não sei quem é! Que insensatez! E aquele outro, que largou os peixes? É micro-empresário, podia servir, mas é muito esquentado e bronco, até arrancou a orelha do pobre guardinha! Tem aquele outro que pode servir, é médico, profissão importante. Ih, não vai dar, ele não é judeu, é gentio, não tem pedigree, coisa que nosso supremo patriarca (salve! salve!) abomina. Só tem uma coisa que nosso supremo patriarca (salve! salve!) abomina mais que gente sem pedigree: é cheque sem fundo.
Aquele outro ali é bom, tem cultura, fala com gente importante, com filósofos, sabe se portar. Mas fala demais, e coisas sem importância. Fala demais de um tal de Cristo, que nem me lembro mais. Ah, o Jambres me lembrou que esse Cristo é o barbudo que foi seguido pelo tal que largou a banca de dinheiro. Desperdício, tsc, tsc.
Ah, acho que aquele serve: é administrador, economista, sabe fazer render o dinheiro, sem desperdiçar com, urgh, pobres (valha-me nosso supremo patriarca salve! salve!), tem bom relacionamento com o clero e com a nobreza, é afável, chegando até mesmo a cumprimentar as pessoas com beijinhos, como fez com aquele barbudo ali. É esse mesmo! Voltaremos ao nosso tempo com nosso contratado!
E assim, a Comunidade Universal Internacional Mundial Intergalática do Reino Feudal Reformado dos Santos dos Últimos Dias contratou sua cara-metade como gospel entertainer. Judas Iscariotes se deu muito bem no futuro. Só reclama da falta de camelo.
P.S.: Antes que você ache que eu viajei demais, é bom lembrar o que nos diz o livrinho antiquado: Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue. Eu sei que, depois da minha partida, entre vós penetrarão lobos vorazes, que não pouparão o rebanho. E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles. (At 20.28-30)
Equilíbrio
Martyn Lloyd-Jones
O apóstolo já nos tem exortado nesta Epístola aos Efésios acerca do que ele chama “parvoíces e chocarrices”. Não devemos ser pomposos, não devemos apresentar-nos com excessiva seriedade, mas isso é muito diferente do erro das “parvoíces e chocarrices”. Muitas vezes fico surpreso por ouvir cristãos cedendo a essas “parvoíces e chocarrices”. Verifiquemos que não estamos produ¬zindo uma atmosfera nociva com esse tipo de coisa. Essa espécie de conversa pertence ao mundo, não a nós. Isso é a instrução das Escrituras.
O mundanismo, naturalmente, tem muitas formas, e há perigos específicos. O apóstolo adverte Timóteo, na Primeira Epístola, capítulo 6, versículo 9: “Os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína. Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores. Mas tu, ó homem de Deus, foge destas coisas”. Paulo aí condena o amor ao dinheiro. O dinheiro como tal não é mau, se o homem o usa apropriadamente, como despenseiro do Senhor Jesus Cristo. Contudo, no momento em que o homem começa a amar o dinheiro, entra o pecado. Tenho bastante idade para poder dizer que tenho visto muita gente boa sair-se mal nesse ponto. Uma vez que acontece isso, a temperatura espiritual sempre abaixa, e ocorre uma rápida perda de vigor espiritual. Conheci homens que foram convertidos de uma vida muito pecaminosa, e que, por causa da sua conversão, começaram a dar atenção ao seu trabalho, progrediram e tiveram sucesso; e tive a infeliz experiência de ver alguns deles caírem na armadilha de que estamos falando. Antes, jogavam fora o seu dinheiro; agora, começaram a amá-lo. Ambos os extremos são maus.
Outra causa da perda de vigor e energia espiritual, e de deixar de ser “forte no Senhor e na força do seu poder”, é a enervante atmosfera da respeitabilidade. É um perigo muito comum na Igreja. Às vezes me pergunto se não é a maior maldição na hora presente. Pelo menos, as estatísticas provam claramente que, por uma razão ou outra, o cristianis¬mo atual não está sensibilizando as classes trabalhadoras deste país. Será, às vezes me pergunto, porque estamos dando a impressão de que o cristianismo é só para as respeitáveis classes médias? Examinemo-nos a nós mesmos sobre isso. Tememos a manifestação do Espírito? Pesa sobre nós a culpa de apagar o Espírito? Tememos a vida, o vigor e o poder? Quantas vezes vi homens que começaram com fogo se tornarem cristãos simplesmente respeitáveis, finos – inúteis, sem nenhuma energia, sem nenhum vigor, sem nenhum poder!
Permitam-me ilustrar isso outra vez com fatos da esfera do ministério. Conheci homens que entraram no ministério e que sem dúvida eram homens chamados por Deus, cheios de paixão pelas almas e revestidos de poder na pregação. Vi-os terminarem apenas como bons pastores, bons visitadores. Visitar faz parte do ministério pastoral; mas se o homem se torna apenas um homem agradável, um pastor bondoso, excelente para receber-se em casa, alguém que toma uma xícara de chá com você, é trágico. Que tragédia o profeta acabar sendo tão-somente um homem amável e um pastor bondoso! Mais uma vez estamos vendo que sempre devemos procurar evitar os extremos. No entanto, não há nada que possa ser tão enervante como esse tipo de atmosfera fina e respeitável, na qual ficamos temendo quase tudo, e, acima de tudo, ficamos temendo a manifestação do poder do Espírito Santo. Por isso, começamos a “extinguir o Espírito”!
É evidente que há aplicações intermináveis deste tema. Ele constitui o fundo e base racional do ensino que se vê em 2 Coríntios, capítulo 6, sobre “não nos prendermos a um jugo desigual com os infiéis”. Isso se aplica primariamente ao casamento. A razão pela qual o cristão não deve casar-se com alguém incrédulo é que, fazendo isso, ele se põe numa atmosfera nociva, que tende a minar a sua energia e vitalidade espiritual. Isso é inevitável, como se vê no fato de que desse modo ele se associou e se prendeu a alguém que não tem vida e entendimento espiritual. Ele, não o seu cônjuge, é que sofrerá as conseqüências. Por conseguinte, somos exortados a não nos sujeitarmos a um jugo desigual com os infiéis.
Peguei daqui.
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O Deus Altíssimo tornou-Se um de nós
John Starke
Tenho certeza de que você já ouviu essa pergunta antes: qual é o pecado fundamental por trás de todo pecado? É uma questão que busca chegar ao centro de toda rebelião humana. As respostas comuns são orgulho ou idolatria. Ambas as respostas parecem convincentes. Eu já ouvi glutonaria, uma vez que o primeiro pecado envolveu comida. Isso pode ser uma extensão dele. Não importa como você o chame, a promessa da serpente – vocês serão como Deus (Gn 3.5) – parece ser decisivo para a decisão de Eva de comer o fruto.
A tentação da serpente significava mais que simplesmente ser divino. Adão e Eva já eram a coroa da criação, a imagem de Deus. Eles eram, por assim dizer, os governantes do mundo e co-regentes de Deus. A tentação era uma tentativa de embaçar a distinção Criador-criatura. Ia fundamentalmente contra como Deus descreve seu relacionamento com tudo mais: “Eu sou o Senhor, e não há nenhum outro; além de mim não há Deus” (Is 45.5). Ela confunde quem Deus é e quem somos em relação a ele. A ilusão é mais significante que Pinóquio querendo ser Gepeto. Eva, a criatura, queria ser como Deus, o Criador e Incriado.
Essa distinção é profundamente clara nos governantes das nações durante a queda e exílio de Israel. Note a pretensão do rei da Babilônia em Isaías 14.14: “Subirei mais alto que as mais altas nuvens; serei como o Altíssimo”. Ele não reinava apenas sobre a Babilônia, mas havia conquistado o mundo e procurava ser algo mais:
Subirei aos céus;
erguerei o meu trono
acima das estrelas de Deus;
eu me assentarei no monte da assembleia,
no ponto mais elevado do monte santo.
Subirei mais alto que as mais altas nuvens;
serei como o Altíssimo”. (Is 14.13,14)
Ele não estava contente em ser o apenas o conquistador da nação. Ele queria reinar sobre céus e terra. Essa presunção pseudodivina é a mesma da tentação de Eva. Ambos perderam de vista a identidade singular de Deus e seus lugares como criaturas. Ambos são exemplos de alta traição. São figuras da rebelião humana.
Enquanto a rebelião humana é o anseio do homem de ser como Deus, é a gloriosa graça do Evangelho que Deus tenha se tornado homem. Deus Filho montou sua tenda conosco e se tornou como nós em todos os aspectos. Isso é a Encarnação, os tijolos da obra salvífica de Deus em Cristo: ele é tanto Senhor Todo-Poderoso quanto nosso Irmão. O Deus eterno tornou-se pequeno por aqueles que queriam subverter sua grandeza. Ele assumiu o lugar daqueles que queriam tomar o seu. O Bendito tornou-se uma maldição por nós. Ele aceitou o julgamento por pecados cometidos contra sua pópria glória. Mais ainda: nós, os orgulhosos, rebeldes, caçadores de glória pessoal, recebemos sua postura perfeita. Não somos apenas perdoados de nossas transgressões, mas as mesmas palavras ditas a Jesus no seu batismo pelo Pai: “Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo” (Lc 3.22) agora são atribuídas a nós! Como uma flor que nasce de seu terreno fértil, assim o Evangelho de Jesus Cristo flui da verdade da encarnação do Filho de Deus.
A história do Natal tem algo a dizer àqueles que desejam ser grandes. Há Alguém que é gloriosamente maior que qualquer coisa nos céus ou na terra. Ele se tornou amaldiçoadamente pequeno, a fim de que em Cristo nos tornássemos maiores do que jamais pudemos imaginar. Não precisamos pecaminosamente desejar amor e adoração, porque fomos muito amados por Deus, cujo amor nos satisfaz mais que a admiração dos outros. Nisto está o amor: embora quiséssemos obstinadamente ser como Deus, Deus se humilhou e tornou-se como nós.
Esse eu achei aqui.
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Tirando um pouco a poeira daqui, vou colocar aqui um vídeo qeo que fiz em homenagem a várias figuras de destaque no cenário gospel brasileiro. E a música é de excelente qualidade, do Chico Buarque. Espero que gostem!
Quando se entra em um site de relacionamento, como Orkut ou Facebook, deve-se deixar registrado no cadastro todas as nossas preferências: tipo de música, onde se graduou, etc etc etc. Todos temos nossas preferências.
Mas acontece que, quando freqüentamos igreja, ocorre algo curioso: os gostos e preferências ficam padronizados, estereotipados. Todos temos que viver uma “vida de crente”, aquele que não bebe, não fuma, não cheira e nem escuta música “mundana” – infelizmente, esse ethos não atinge a vida moral: não se deve fumar ou beber, mas a maledicência, a injúria, a crueldade e a sensualidade são práticas corriqueiras, desde que cobertas com o manto hipócrita da religiosidade estéril. Enfim, uma espécie de gnosticismo meia-boca, onde a espiritualidade é divorciada do cotidiano.
Mas, como não sou uma pessoa que pensa dentro da caixinha (pelo menos tento), coloco aqui quais são minhas preferências:
• Prefiro ter amigo gay a ter amigo ultrafundamentalista e, como conseqüência, machista. O gay, ao menos, quer viver sua vida, mas o ultrafundamentalista não vive a sua e quer se meter na dos outros também.
• Prefiro andar com um ateu a me relacionar com um dogmático. Com exceção de Richard Dawkins, tão dogmático e fundamentalista em sua cruzada ateísta quanto qualquer religioso de carteirinha, o ateu não vê Deus através das argumentações e dados experimentais. O dogmático só consegue ver Deus através de um volume grosso e empoeirado de teologia sistemática, mas nada mais além disso.
• Andar com gente entortada pela vida é bem melhor que andar com gente desentortada pela própria retidão religiosa. O entortado pela vida ainda pode ser desentortado pelo Crucificado, mas o desentortado pela religião precisa ser entortado-e-desentortado pelo Senhor.
• Prefiro ouvir Zé Ramalho a ouvir muita estrelinha gospel, do modelo Beyonce-wannabe. Zé Ramalho chega a até mesmo fazer uma alegoria (inconsciente, creio eu) do estado da igreja evangélica de hoje através da música Admirável gado novo, além de nos premiar com sua bela poesia. As estrelinhas gospel de hoje não apresentam nem a beleza da poesia e nem a harmonia de uma bela canção, e muito menos nos fazem pensar. É produto industrial, e não arte.
• Prefiro a sabedoria de crianças à infantilidade de gente envelhecida no coração. Deus suscita força da boca das crianças, mas o coração envelhecido gera rancor, amargura e depravação.
• Prefiro o Jesus simples dos Evangelhos ao falso jesus mercadológico. O Jesus simples, se estivesse fisicamente entre nós hoje, andaria com gente maltrapilha, iria a um show de rock comigo, me mostraria o Pai. Já o jesus mercadológico está atrás apenas do meu dinheiro, com seus cada vez mais desavergonhados arautos e seus produtos de quinta categoria.
Chico Buarque, no auge da ditadura militar no Brasil, escreveu uma linda música: O que será, falando sobre a paranóia daqueles tempos bicudos. Lá no final da letra, Chico escreve com maestria: E mesmo padre eterno / Que nunca foi lá / Olhando aquele inferno / Vai abençoar! / O que não tem governo / Nem nunca terá! / O que não tem vergonha / Nem nunca terá! / O que não tem juízo…