Blog do Digão


The end
17/10/2013, 4:11 pm
Filed under: Genizah Virtual, geral, igreja, Pastorado de verdade, Ultimato, vida de gado

the-endTudo na vida acaba. Coisas boas, coisas ruins. Até a vida acaba. E este blog acabou. A gente se vê por aí.



A princesa do reino mágico das bolhas de cristal
28/09/2012, 8:41 pm
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Sempre volto da faculdade tarde da noite, depois das 11h30, já que preciso viajar para estudar (o campus de Direito de minha faculdade, a Universidade Federal de Rondônia, está em Cacoal, distante cerca de 60 km de minha cidade, Rolim de Moura). Chegando dia desses da aula, depois de longo tempo de greve, resolvo dar uma relaxada antes de dormir. Assalto a geladeira e ligo a TV. Mas quase engasgo com o que vi.

No programa de entrevistas da jornalista Marília Gabriela, lá estava ela, a diva pop-gospel, impávida diante das perguntas: Aline Barros. Confesso que gostava mais de suas músicas quando ela ainda era mais jovem, sem ter se rendido tão sofregamente ao espírito de Baal que campeia aquela que um dia se chamou “igreja evangélica brasileira”. Tal espírito de Baal é capaz de desgraçar uma pessoa afastando-a da Graça do Crucificado e desumanizando-a, no caminho inverso ao do Verbo, que decidiu Se humanizar, conforme nos relata o Evangelho de João.

Não vi toda a entrevista, mas o que vi me deu engulhos. Em nenhum momento consegui ver Jesus nos olhos, palavras ou atitudes da moça. Não vi, em seus belos olhos delineados com maquiagem de primeira, o brilho da espontaneidade de pessoas tocadas pela misericórdia do Senhor que, ao perceberem o ato divino, entendem-se mais humanos e mais alertas contra a tentação de se verem como parte da divindade, como foi a tentação da serpente contra Eva e que agora é repetida ad nauseaum. O que vi foi apenas um triste teatro querendo passar a virtude triunfalista e alter-humana de Baal, ao afirmar que não possui medo, pois este é apenas o último obstáculo a ser vencido na caminhada para o sucesso.

Mas a cereja do bolo estava no final. Num rápido bate-bola, Marília Gabriela faz a derradeira pergunta: “Aline Barros por Aline Barros”. Depois de revirar os olhos, ela simplesmente diz: “sou uma princesa de um reino eterno de amor”. Pois é, além de Baal desumanizar seus servis colaboradores, ainda os faz pensar que estão em algum tipo de conto de fadas. Talvez seja uma reminiscência da Xuxa, aquela cantada como “minha rainha, minha fada madrinha” anos atrás pela própria Aline, ou talvez seja uma referência a She-Ra, personagem icônico de grande parcela da população, especialmente da parcela de fãs GGs da cantora.

Enfim, Jesus disse que a boca fala daquilo que enche o coração, e Freud disse que ato falho é aquilo que nosso inconsciente nos faz dizer mesmo quando tentamos encobrir conscientemente. Aline Barros, a She-Ra do “mundim góspi” tupiniquim, comete o ato falho de se revelar como habitante de uma terra de faz-de-conta, de fantasia, onde há um “arco-íris de energia”, revelando um coração transbordante de irrealidade. Mas na terra de fantasia não há espaço para o Verbo, que não é fantasia, mas sim real. Na ilusão não há lugar para o despertamento causado pelo verdadeiro amor do verdadeiro Deus. Enfim, no castelo de faz-de-conta desumanizante e desumano da engrenagem gospel, não há lugar para o trono do verdadeiro Rei.



Ô canseira!
30/07/2012, 7:13 pm
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Há poucas semanas atrás, vimos o espetáculo deprimente de uma dondoca abandonada pelo marido soltar toda sua amargura em rede nacional, acusando-o de macumbeiro – como se ela, à época das trevas do poder de seu ex-marido, também não tivesse se beneficiado dos resultados dos feitiços. Rosane Malta (ex-Collor) foi uma das responsáveis, se não a maior, pela quebra da finada LBA (Legião Brasileira de Assistência), órgão federal que deveria se voltar ao cuidado dos pobres, mas que não resistiu à sanha por dinheiro da ex-dama de Canapi. Como se receber R$ 18 mil de pensão fosse coisa vergonhosa, ela teve a cara de pau de desfiar sua inveja por uma amiga que recebe R$ 40 mil de pensão do ex, querendo algo parecido para si. O mais deprimente é ver que esta senhora, que tanto nos envergonhou no passado (quem não se lembra de suas gafes homéricas?), continua a nos cobrir de vergonha no presente, ao usar surrados jargões religiosos, como “jesuscidência”, que me fazem lembrar da Valnice Milhomens em um dia ruim.

Nesta semana, minha esposa me chama a atenção para um programa televisivo que apontaria para a votação do maior brasileiro de todos os tempos. Noves fora a pretensão e a falta de objetividade de um programa desses, tive que me sentar ao ver que, no meio dos elencados, estão RR Soares, Valdomiro Santiago, Edir Macedo e Silas Malafaia. Desses, apenas Romildo Ribeiro não foi mais lembrado que d. Hélder Câmara, que desempenhou papel profético muito mais relevante que os quatro cavaleiros do apocalipse evangélico tupiniquim. Nem vi menção, inclusive, a Miguel Reale, jurista que muito contribuiu para o entendimento e a aplicação do Direito por aqui. Se bem que, na companhia de Xuxa, Michel Teló e Luan Santana, é melhor nem aparecer mesmo…

Eis que, ontem, vi o vídeo em que uma garota de programa é praticamente achacada por um bispo da Universal, que pediu para ela, em troca da “decretação da cura” de um problema no fígado, sua contribuição para a construção do templo de Salomão, o que ela prontamente ofereceu, através do fruto da venda de si própria. Nenhuma palavra sobre a santidade do corpo. Nem mesmo aquela sanha pseudo-moralista que alegra hipócritas que, em suas neuroses e distorções de caráter, confundem comportamento moral com posicionamento político-ideológico, chamando todos os opositores de coisas absurdas. Não se tocou na questão da dignidade da pessoa humana. Nada foi dito sobre o verdadeiro templo do Senhor, que é o corpo do cristão. Nenhuma palavra de evangelização para uma moça que está francamente clamando por socorro. Não foi dito nada acerca do amor de Jesus por cada um de nós. Apenas a ênfase de que, se construíssemos a casa de Deus, Ele nos faria ricos.

Esses casos gritantes e aberrantes se mesclam às cotidianas pequenas decepções com gente que acha que servir a Deus é o mesmo que ser CEO (Chief Executive Officer) em uma empresa religiosa que usa o nome de “igreja”, ou que, abandonando os irmãos feridos à beira do caminho, está se mantendo puro e intocado para o seu “Noivo” (essa novilíngua evangélica de hoje beira o sexismo gay!). Tristezas com gente capaz de recitar os cinco pontos do calvinismo, ou talvez os pontos remonstrantes, mas incapaz de viver além do próprio umbigo. Esse caldo grosso e insalubre de religiosidade tóxica empesteia o ar em redor e envenena o coração. E é esse caldo grosso, e não a Graça do Crucificado, o que tem sido apresentado nos púlpitos brasileiros, em sua maioria.

Isso me faz chegar a algumas conclusões: 1) o protestantismo que aqui chegou no século XIX já morreu e foi enterrado em vala de indigente, pois nem chegou a ter um funeral digno; 2) o que se chama de “evangélico” nada mais tem a ver com o Evangelho, mas antes é uma manifestação cultural tipicamente brasileira, pródiga em misturar elementos a princípios conflitantes e, a partir desta dialética doutrinária, criar novas fés – o candomblé é o maior exemplo disso, com sua mescla de elementos do catolicismo e da umbanda; e 3) as doutrinas da Graça, tão preciosas para aqueles que vieram antes de nós, foram substituídas pelos frutos mais agressivos do individualismo. Ou seja, o espírito do mundo, contra quem João tanto nos alertou (1Jo 2.15-17), é hoje o paradigma existencial de grande parcela de brasileiros que afirmam amar a Deus.

Em outros tempos eu me descabelaria. Hoje o máximo que isso me dá é uma enorme canseira e enfado. Afinal, é um sistema alienado e alienante que subverte vidas. Mas também este enfado me dá paz. Paz porque o Senhor conhece os Seus (2Tm 2.19), que não se envolvem nessa coisa toda. Paz porque o julgamento purificador está próximo (1Pe 4.17), e as máscaras vão cair. Paz porque sei que meu Redentor vive (Jó 19.25), e um dia essa bandalheira toda se findará. Mas, até lá… ô, canseira!



O milagre da incredulidade
28/05/2012, 7:36 pm
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Hoje em dia, vejo que o que chama a atenção do pessoal das igrejas é a questão do milagre. Não que eu descreia na existência deles, mas acho que essa ênfase nos milagres muito ruim. Afinal, se as pessoas estão num caminho de milagres que hoje vai chegar, qual o destino final deste caminho?

Lendo a Bíblia, especialmente os Evangelhos, é espantoso como Jesus foi parcimonioso em relação aos milagres quando estes se referiam aos Seus discípulos. Tudo bem que a sogra de Pedro foi curada (Mt 8.14, 15), e o Senhor andou por cima das águas para Se encontrar com os discípulos em meio a uma grande tempestade (Mc 6.45-52); mas, com exceção destes, não sei de nenhum outro milagre feito para os discípulos.

Em compensação, vemos um monte de milagres direcionados para pessoas de fora do círculo de intimidade de Jesus: água transformada em vinho (Jo 2.1-12), demônios expulsos (Mc 7.24-30), pessoas mortas ressuscitando (Lc 7.11-17), leprosos ficando limpos de seu mal (Lc 17.11-19), pães e peixes multiplicados que alimentam uma grande multidão (Mt 14.13-21), gente doente ficando sã (Mc 7.31-37).

Ao que parece, o discípulo Filipe entrou nessa onda de milagres. Enquanto Jesus confortava seus discípulos, pois a hora de Seu sacrifício estava chegando, Filipe disse ao Senhor que ficaria satisfeito só em ver milagrosamente o Pai (Jo 14.8). Jesus lhe deu uma resposta que serve para todos nós hoje: quem vê a Mim vê o Pai (Jo 14.9).

Ou seja, a razão da pouca quantidade de milagres entre os discípulos é que eles já tinham o melhor de Deus (que já veio, não está por vir), que é o próprio Jesus. Já as multidões, que não tinham a convivência com o Senhor, tiveram que se contentar com o pequeno paliativo dos milagres.

Sim, creioem milagres. Mascreio também que há algo maior que se esconde por trás desta questão, que é a incredulidade. John Stott certa vez afirmou que a ênfase que alguns dão ao dom de cura é uma cortina de fumaça para a falta de fé. Afinal, o Deus que cura doentes é o mesmo que manda maná do céu ou levanta mortos do túmulo, mas não vejo ninguém pedindo para cair pão celestial… O mesmo se dá em relação aos milagres: como o relacionamento com Jesus envolve fé, amadurecimento e, consequentemente, tempo, compromisso e mudança de vida, muita gente descobriu um paliativo religiosamente aceitável, que é a busca frenética por milagres.

Enfim, não nego a realidade dos milagres. Eles atestam a intervenção externa de Deus em um sistema aberto, que é nosso universo. Mas Deus já providenciou algo melhor. Em vez de ações pontuais, externas e isoladas, temos a presença (interna) constante de Jesus, que prometeu nunca nos abandonar (Mt 28.20). E isso, definitivamente, é muito melhor do que qualquer milagre.



Medievalices
28/05/2012, 5:18 pm
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Agostinho (354-430) nasceu em Tagaste, no norte da África, onde atualmente fica a Argélia. Teve uma vida dissoluta, mesmo para os padrões de seu tempo. Envolveu-se com várias mulheres, chegando a ser um pai “avulso”. Também envolveu-se com os maniqueístas, seita de seu tempo que entendia que o universo era regido por duas forças antagônicas (bem e mal) de igual força e potência. Tendo viajado à Itália, a contragosto de sua mãe cristã, Mônica, abandonou o maniqueísmo e abraçou o ceticismo neoplatônico, mas logo encontrou-se com Deus, ouvindo Sua voz enquanto passeava em um jardim.

Sua conversão influenciou não apenas sua geração (para usar um jargão da moda), mas também a nossa. Ele foi o responsável pela “dessatanização” da filosofia em seu tempo, especialmente Platão. Ajudou a formatar o pensamento ocidental, a teologia, a filosofia e o direito. Debateu contra a heresia de Pelágio, que afirmava que a salvação podia ser produzida por Deus com a ajuda do homem, e venceu a disputa. Foi o último dos chamados pais latinos da Igreja, e também o maior deles. Seu pensamento também ajudou grandemente a Reforma Protestante (Martinho Lutero era monge agostiniano), que brotou cerca de mil anos após sua morte. Se você entende que somente a graça de Deus é capaz de redimir o homem de maneira sobrenatural, ou que o homem é irremediavelmente corrompido pelo pecado, agradeça a Deus pela vida de Agostinho.

Agostinho foi a “porta de entrada” da chamada Idade Média, assim como Tomás de Aquino foi sua “porta de saída”. A Idade Média viu florescer absurdos como o papado absolutista e a Inquisição, fruto direto desta, como também a sede desmedida por dinheiro através da venda de indulgências. Viu também o florescimento de crendices e superstições por parte de um povo que não era instruído na Palavra. Mas viu também homens e mulheres santos como João da Cruz, Teresa de Ávila, Jan Hus, Francisco de Assis, Girolamo Savonarola e John Wycliffe, além dos próprios citados Agostinho e Aquino. Foi na Idade Média que também surgiram centros de preservação do conhecimento, os mosteiros, que deram nascimento às universidades.

Por tudo isso vejo como desonestidade histórica e intelectual a peroração de Ricardo Gondim ao afirmar que deveríamos rever o conceito “medieval” de salvação. A picaretagem teológica do arauto do teísmo aberto agora quer atingir o cerne da mensagem bíblica. Enfim, para quem afirmou carnavalescamente que não quer mais se identificar como evangélico, mas segue sendo pastor de uma igreja evangélica, ou questionando a influência dos estadunidenses no ethos evangélico brasileiro mesmo devendo sua formação teológica a uma instituição estadunidense, coerência não é mesmo um referencial.



Você é fogo, eu sou paixão
12/05/2012, 11:32 am
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Terranova? Não, Wando

O maior sucesso do falecido cantor Wando se chama Fogo e paixão, e dizia: “você é luz, meu raio estrela e luar, manhã de sol, meu iaiá, meu ioiô”. Como a Bíblia ficou há muito ultrapassada, descon-fio que a inspiração de muitos não vem mais de um livro semita antigo, mas do falecido cantor romântico mesmo. Acho até mesmo que seria perigoso Wando ser entronizado como apóstolo, no ritmo em que as coisas andam.

Explico: primeiro, as pessoas não sabem mais o que dizem. Como na pós-modernidade o significado das palavras pode variar, graças ao desconstrucionismo de Derrida, o mesmo ocorre com termos en-contrados dentro deste grupo social. Por exemplo, muitos falam em serem apaixonados por Deus. É uma paixonite aguda que mais parece coisa de adolescente cheio de espinha e fã do Luan Santana! É paixão pra cá, é paixão pra lá… E dá-lhe aquelas coreografias apaixonadas por Deus, mesmo sem se importar com o princípio de decência e ordem (1Co 14.40) dada pelo próprio Senhor… Porém, a Bíblia não diz para nos apaixonarmos, e sim para amarmos a Deus. Há uma grande confusão, e as pessoas acham que a ordem de Jesus em amar a Deus sobre tudo se refere à nossa vida emocional. Mas o amor ao qual Jesus Se refere não é uma emoção, e sim uma ação. Deus amou o mundo de tal maneira (Jo 3.16) que agiu, enviando Seu Filho ao mundo. Jesus amou Seus discípulos (e, por extensão, a todos nós) demonstrando Seu amor não com beijinhos, afagos ou suspiros, mas morrendo na cruz. Amor a Deus não pode ser comparado com paixão, pois não pode ser rebaixado a uma simples emoção, volú-vel e volátil com as circunstâncias da vida.

Segundo, outra coisa que vejo é a fixação com o fogo. Todo mundo pede fogo, mesmo sem saber o que significa! Até parece que o pessoal quer fazer uma gigante festa junina gospel, obviamente sem a presença de S. João (mas quem sabe com outra presença “ungida”…). São tantas canções que falam a respeito de fogo que temo que o pessoal venha a fazer xixi na cama de noite! Acontece que nem sem-pre fogo é símbolo da presença do Espírito Santo (Is 4.4, At 2.3). Na verdade, o fogo é usado com mais frequência na Bíblia como símbolo da justiça de Deus sendo executada (Dt 4.24, Hb 12.29, Is 10.17, Ml 3.2, Jr 5.14, 23.29, Jr 48.45, Lm 1.13, Ez 39.6, Sl 119.139). É também usado como símbolo de perseguição (Lc 12.49-53) e perversão moral (Is 9.18, Pv. 6.27, 28).

Isso tudo porque o pessoal não quer saber de teologia. Em sua ignorância, muitos acham que isso é coisa de intelectual frio, afastado do Espírito e voltado somente a livros empoeirados que são mais uma Disneylândia para ácaros e traças do que fonte de informação. Esquecem-se de que a própria Bí-blia nos diz para estudarmos a Palavra (Js 1.8), a fim de que possamos ter um bom guia para nossa existência (Sl 119.105), encontrando nela a pessoa de Deus revelado em Cristo (Jo 5.39). Teologia é, sim, uma ótima ferramenta contra os lobos vestidos em pele de apóstolo.

Como diria o orador romano Cícero, que tempos os nossos! E que costumes!



Um conto de fadas
10/05/2012, 1:05 pm
Filed under: igreja, Pastorado de verdade, vida de gado

Há um novo seriado na TV fechada (e através de downloads) muito bom, chamado Once upon a time – em português, Era uma vez. Apesar de parecer bobinho à primeira vista, torna-se cativante à medida que sua mitologia interna se desenrola: nas histórias de contos de fada, Branca de Neve está para dar à luz a uma menina, e esta criança salvaria todo o reino mágico de uma maldição lançada pela Rainha Má. Esta maldição se concretiza ao trazer todos aqueles personagens – Branca de Neve, Príncipe Encantado, os Sete Anões, Cinderela, etc. – até nossa realidade sem nenhuma magia. Além disso, eles vivem entre nós completamente desmemoriados, com uma vida simples e comum – Branca de Neve é professora de crianças, o Caçador é o xerife, o Grilo Falante é o psicólogo local, e por aí vai. Acontece que o que faz a série ser cativante é a complexidade dos personagens, nunca antes vista: o Espelho Mágico seria, antes, um gênio da lâmpada que se apaixonou perdidamente pela Rainha Má, e foi aprisionado no espelho como punição; a Rainha Má também sofre com suas maldades, que são fruto parcial de uma falha de caráter da Branca de Neve; o Príncipe Encantado é, na verdade, um impostor; e nem vou falar quem é verdadeiramente o Lobo Mau para não estragar a surpresa.

Quando lemos a Bíblia, ela nos revela que os personagens históricos ali retratados eram tudo, menos seres unidimensionais: o rei Davi, homem segundo o coração de Deus, era péssimo pai, péssimo marido e péssimo governante, mas ainda assim arrependia-se de seus pecados; o profeta Jeremias, chamado por Deus para anunciar Sua Palavra ao povo, sofria crises existenciais e de fé terríveis no cumprimento do dever; Jonas, chamado a pregar em uma cidade estrangeira, decidiu fugir para não ter que cumprir sua vocação, que foi, relutantemente, cumprida após a experiência com o peixe; Paulo, apóstolo enviado aos gentios, tinha um passado assassino que não fazia questão de esconder, amparando-se, contudo, não na própria experiência, mas na Graça; Marcos, posterior discípulo de Pedro e um dos evangelistas, foi, no passado, um “boyzinho” e o motivo da cisão entre Paulo e Barnabé; Pedro, o primeiro líder da igreja, comportou-se de maneira reprovável na igreja da Galácia; Jesus, nosso Senhor e Deus, sofreu fome, sede, teve crise depressiva e ficou muito bravo com o mercantilismo religioso de Seu tempo.

A igreja evangélica brasileira, que hoje em dia é qualquer coisa menos verdadeiramente evangélica, tem reduzido a multidimensionalidade humana a uma triste unidimensionalidade. Qualquer traço de diversidade de dimensões e experiências é logo rechaçado. Segundo a mensagem pagã que infesta os palcos das performances dominicais e infecta a alma do povo, qualquer outro destino que não seja a vitória, o sucesso e a vida regalada deve ser negado, a não ser que, numa mistura de epicurismo com hedonismo, o sofrimento pode ser permitido se trouxer um prazer (material) enorme ao seu fim. A mensagem pagã propagada nos hospícios que já se chamaram igrejas nada fala sobre real adoração a Deus, mudança de caráter, pecado ou arrependimento; em vez disso, transforma seus ouvintes em meros participantes de um festejo a Baal, que era o deus fenício da prosperidade, ou Baco, seu equivalente romano. Como os cultos a Deus, que prezam pela santidade e reverência ao Seu nome, foram trocados por verdadeiros bacanais palatáveis à classe média, pode-se fazer tudo, desde “trenzinhos” até mesmo surtos catárticos.

Jesus se tornou gente para que pudéssemos viver nossa humanidade para Sua glória. Mas Baal, o deus deste século e de grande parte da igreja evangélica, quer retirar a humanidade de circulação de nossas vidas, uma vez que ela reflete a obra de Deus. Tornando-nos personagens de contos de fadas, onde o final feliz é garantido no fim, glorificamos, mesmo, é apenas ao nosso ego doente. E ao próprio Baal.