Blog do Digão


Sessão da tarde
23/08/2010, 11:41 pm
Filed under: vida de gado

É, eu sei. Sou um cara estranho. Não sou um sujeito perfeitinho, e nem faço questão de sê-lo, ao menos de acordo com os padrões religiosos de hoje em dia – o que me causa várias dores de cabeça… Entre minhas estranhezas está meu gosto por filmes esquisitos. Não me entenda mal: gosto muito de comédias, ficção científica e suspense. Gosto de filmes que façam refletir. Mas gosto muito também de tosqueira. Filmes trash me fazem a cabeça. Mas o trash, para ser bom, tem que ser despretensioso, senão fica muito pedante. Gostei demais de Toxic Avenger, O incrível homem que derreteu, as versões turcas de Superman (com o herói mais subnutrido que já vi), Star Trek e Star Wars. Isso sem contar com o mestre no assunto, Ed Wood, que nos deixou a pérola Plano 9 do espaço sideral.

Mas não gosto de imposturas. Quentin Tarantino, por exemplo, é um trash involuntário porque é pedante mas faz coisa ruim. Avatar também é trash involuntário com aquela conversinha ambientalista de fim-de-semana, enquanto espera o McLanche Feliz no shopping.

Gosto dos filmes genuinamente trash porque não se levam a sério. Na sua tosquice, fazem mesmo é rir do orçamento diminuto, da falta de talento dos atores e do diretor, das situações improváveis e do fiapo de roteiro implausível. Mas os pseudo-trash, com sua tentativa de reinventarem a roda (ou, no caso, o projetor dos irmãos Lumière), caem no ridículo da pretensão humana e do ego mal trabalhado.

Fico pensando se a igreja evangélica de hoje não estaria caminhando para ser um filme trash involuntário. O orçamento é grande (“sementes” do Malafaia, campanhas missionárias meio nebulosas, o rendimento de CDs, DVDs e quinquilharias gospel), os estúdios, grandiosos (como a réplica do templo de Salomão da IURD), a trilha sonora, prontinha (com os gritos histéricos e gemidos inexprimíveis erótico-espirituais). Mas os atores querem aparecer mais que o Autor do roteiro. São estrelas demais, fazem exigências demais, marqueteiros demais, artistas de menos. Afinal, os crentes de hoje são muito religiosos, mas não se preocupam tanto em serem apenas irmãos, servos e discípulos. O roteiro, que é simples e está pronto há pelo menos 2000 anos, ficou irreconhecível depois de ser tão mexido por mãos incapazes e de motivações inconfessáveis. A direção, que deveria estar a cargo do Espírito, foi tomada por gente de dura cerviz e de coração incircunciso.

O resultado disso tudo é o fracasso de bilheteria que estamos vendo. A platéia está interessada na história original, e não nessa “versão” comercial – e bota comercial nisso. Enfim, os proponentes da Igreja Evangélica Brasileira – O Filme esperam ganhar um Oscar. Vão ganhar, no máximo, um Framboesa de Ouro.

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2 comentários so far
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Bote lá caboclo!

Comentar por Danilo

Digão, a impressão que tenho é que a platéia está gostando do enredo, mas não sabe o fim reservado para eles mesmos. Como a versão comercial suprimiu muitos itens do original, até o final foi alterado – ninguém mostra a condenação eterna, mas a platéia vai ter de encarar a última sessão do júri, estando ou não nos créditos.

Comentar por Gelza Rúbia




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