Blog do Digão


Você é fogo, eu sou paixão
12/05/2012, 11:32 am
Filed under: Genizah Virtual, vida de gado

Terranova? Não, Wando

O maior sucesso do falecido cantor Wando se chama Fogo e paixão, e dizia: “você é luz, meu raio estrela e luar, manhã de sol, meu iaiá, meu ioiô”. Como a Bíblia ficou há muito ultrapassada, descon-fio que a inspiração de muitos não vem mais de um livro semita antigo, mas do falecido cantor romântico mesmo. Acho até mesmo que seria perigoso Wando ser entronizado como apóstolo, no ritmo em que as coisas andam.

Explico: primeiro, as pessoas não sabem mais o que dizem. Como na pós-modernidade o significado das palavras pode variar, graças ao desconstrucionismo de Derrida, o mesmo ocorre com termos en-contrados dentro deste grupo social. Por exemplo, muitos falam em serem apaixonados por Deus. É uma paixonite aguda que mais parece coisa de adolescente cheio de espinha e fã do Luan Santana! É paixão pra cá, é paixão pra lá… E dá-lhe aquelas coreografias apaixonadas por Deus, mesmo sem se importar com o princípio de decência e ordem (1Co 14.40) dada pelo próprio Senhor… Porém, a Bíblia não diz para nos apaixonarmos, e sim para amarmos a Deus. Há uma grande confusão, e as pessoas acham que a ordem de Jesus em amar a Deus sobre tudo se refere à nossa vida emocional. Mas o amor ao qual Jesus Se refere não é uma emoção, e sim uma ação. Deus amou o mundo de tal maneira (Jo 3.16) que agiu, enviando Seu Filho ao mundo. Jesus amou Seus discípulos (e, por extensão, a todos nós) demonstrando Seu amor não com beijinhos, afagos ou suspiros, mas morrendo na cruz. Amor a Deus não pode ser comparado com paixão, pois não pode ser rebaixado a uma simples emoção, volú-vel e volátil com as circunstâncias da vida.

Segundo, outra coisa que vejo é a fixação com o fogo. Todo mundo pede fogo, mesmo sem saber o que significa! Até parece que o pessoal quer fazer uma gigante festa junina gospel, obviamente sem a presença de S. João (mas quem sabe com outra presença “ungida”…). São tantas canções que falam a respeito de fogo que temo que o pessoal venha a fazer xixi na cama de noite! Acontece que nem sem-pre fogo é símbolo da presença do Espírito Santo (Is 4.4, At 2.3). Na verdade, o fogo é usado com mais frequência na Bíblia como símbolo da justiça de Deus sendo executada (Dt 4.24, Hb 12.29, Is 10.17, Ml 3.2, Jr 5.14, 23.29, Jr 48.45, Lm 1.13, Ez 39.6, Sl 119.139). É também usado como símbolo de perseguição (Lc 12.49-53) e perversão moral (Is 9.18, Pv. 6.27, 28).

Isso tudo porque o pessoal não quer saber de teologia. Em sua ignorância, muitos acham que isso é coisa de intelectual frio, afastado do Espírito e voltado somente a livros empoeirados que são mais uma Disneylândia para ácaros e traças do que fonte de informação. Esquecem-se de que a própria Bí-blia nos diz para estudarmos a Palavra (Js 1.8), a fim de que possamos ter um bom guia para nossa existência (Sl 119.105), encontrando nela a pessoa de Deus revelado em Cristo (Jo 5.39). Teologia é, sim, uma ótima ferramenta contra os lobos vestidos em pele de apóstolo.

Como diria o orador romano Cícero, que tempos os nossos! E que costumes!

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1 Comentário so far
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Amado rev. Digão. Paz!

Outro texto combatendo os “apixonados por Deus/Jesus”. rs Brincadeirinha!
Compreendo onde o irmão está tentando chegar. Visto as bizarrices de emocionalismo exacerbado que têm sido feitas por alguns seguimentos em suas reuniões de celebração, onde pós-culto não se vê o amor como atitude a levar essas mesmas pessoas a viverem os valores da vida cristã com autenticidade e verdade.
Contudo, ainda sou da opinião que não é porque uma dimensão de nossa espiritualidade, e porque não dizer da essência de ser humano, está sendo ridiculamente deturpada que devemos simplesmente despreza-la como não tendo relevância para nossa caminhada de fé.
O grande problema é acabarmos jogando o a criança junto com a água suja. E tornarmo-nos reticentes e cínicos quanto a algo que o próprio Deus colocou em nós como fruto de sua imagem e semelhança.
O que mais me causa estranheza é que os autores bíblicos em nenhum momento negam as emoções como parte da experiência cristã. Num outro comentário citei um texto de 2Pedro onde o apóstolo fala da “alegria indizível” em outras traduções “inexpremível” que caracterizava os afetos de seus leitores em relação àquele Jesus que eles criam sem nunca o trem visto pessoalmente. Em nenhum momento suas palavras em relação a emoção de seus leitores é colocada como algo negativo. Acredito que Pedro assim se colocou em vista de tudo o que ele tinha já escrita na primeira carta e o que tinha exposto na presente: uma caminhada de vida cristã que celebra e valoriza a santidade, o amor fraternal e o bom testemunho com os de fora. Frutos inquestionáveis de uma atitude inteligente de obediência (amor) a Deus.
Acredito, amado irmão, que podemos caminhar no equilíbrio das duas dimensões: razão e emoção; intelecto e coração; teologia e espiritualidade; amor e paixão. Porquanto ambas o Senhor concede-nos e devem ser celebradas por nós, seu povo, para o louvor de sua bendita glória (1Co 10:31).
Deus o abençoe. Em Cristo. Do seu irmão na fé.
Paz e bem!

Comentar por Felipe Maia




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