Blog do Digão


Medievalices
28/05/2012, 5:18 pm
Filed under: Genizah Virtual, igreja, Pastorado de verdade, vida de gado

Agostinho (354-430) nasceu em Tagaste, no norte da África, onde atualmente fica a Argélia. Teve uma vida dissoluta, mesmo para os padrões de seu tempo. Envolveu-se com várias mulheres, chegando a ser um pai “avulso”. Também envolveu-se com os maniqueístas, seita de seu tempo que entendia que o universo era regido por duas forças antagônicas (bem e mal) de igual força e potência. Tendo viajado à Itália, a contragosto de sua mãe cristã, Mônica, abandonou o maniqueísmo e abraçou o ceticismo neoplatônico, mas logo encontrou-se com Deus, ouvindo Sua voz enquanto passeava em um jardim.

Sua conversão influenciou não apenas sua geração (para usar um jargão da moda), mas também a nossa. Ele foi o responsável pela “dessatanização” da filosofia em seu tempo, especialmente Platão. Ajudou a formatar o pensamento ocidental, a teologia, a filosofia e o direito. Debateu contra a heresia de Pelágio, que afirmava que a salvação podia ser produzida por Deus com a ajuda do homem, e venceu a disputa. Foi o último dos chamados pais latinos da Igreja, e também o maior deles. Seu pensamento também ajudou grandemente a Reforma Protestante (Martinho Lutero era monge agostiniano), que brotou cerca de mil anos após sua morte. Se você entende que somente a graça de Deus é capaz de redimir o homem de maneira sobrenatural, ou que o homem é irremediavelmente corrompido pelo pecado, agradeça a Deus pela vida de Agostinho.

Agostinho foi a “porta de entrada” da chamada Idade Média, assim como Tomás de Aquino foi sua “porta de saída”. A Idade Média viu florescer absurdos como o papado absolutista e a Inquisição, fruto direto desta, como também a sede desmedida por dinheiro através da venda de indulgências. Viu também o florescimento de crendices e superstições por parte de um povo que não era instruído na Palavra. Mas viu também homens e mulheres santos como João da Cruz, Teresa de Ávila, Jan Hus, Francisco de Assis, Girolamo Savonarola e John Wycliffe, além dos próprios citados Agostinho e Aquino. Foi na Idade Média que também surgiram centros de preservação do conhecimento, os mosteiros, que deram nascimento às universidades.

Por tudo isso vejo como desonestidade histórica e intelectual a peroração de Ricardo Gondim ao afirmar que deveríamos rever o conceito “medieval” de salvação. A picaretagem teológica do arauto do teísmo aberto agora quer atingir o cerne da mensagem bíblica. Enfim, para quem afirmou carnavalescamente que não quer mais se identificar como evangélico, mas segue sendo pastor de uma igreja evangélica, ou questionando a influência dos estadunidenses no ethos evangélico brasileiro mesmo devendo sua formação teológica a uma instituição estadunidense, coerência não é mesmo um referencial.

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2 comentários so far
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Parabéns pelo texto. Muita coragem chamar de santos esses homens. Agostinho pra você ou Santo Agostinho pra mim, deixou incontável contribuição pra nossa fé Cristã, (Católica ou Evangélica). Infelizmente algumas pessoas tem paúra de tomar conhecimento de grandes pensadores cristão de uma confissão doutrinal diferente.

Comentar por Michel Wingler

O pastor se esqueceu de mencionar Anselmo da Cantuária. Essa dobradinha – Anselmo e Agostinho – formam as proprias raízes teologicas medievais da reforma protestante.

Comentar por José Avila




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