Blog do Digão


A princesa do reino mágico das bolhas de cristal
28/09/2012, 8:41 pm
Filed under: Genizah Virtual, vida de gado

Sempre volto da faculdade tarde da noite, depois das 11h30, já que preciso viajar para estudar (o campus de Direito de minha faculdade, a Universidade Federal de Rondônia, está em Cacoal, distante cerca de 60 km de minha cidade, Rolim de Moura). Chegando dia desses da aula, depois de longo tempo de greve, resolvo dar uma relaxada antes de dormir. Assalto a geladeira e ligo a TV. Mas quase engasgo com o que vi.

No programa de entrevistas da jornalista Marília Gabriela, lá estava ela, a diva pop-gospel, impávida diante das perguntas: Aline Barros. Confesso que gostava mais de suas músicas quando ela ainda era mais jovem, sem ter se rendido tão sofregamente ao espírito de Baal que campeia aquela que um dia se chamou “igreja evangélica brasileira”. Tal espírito de Baal é capaz de desgraçar uma pessoa afastando-a da Graça do Crucificado e desumanizando-a, no caminho inverso ao do Verbo, que decidiu Se humanizar, conforme nos relata o Evangelho de João.

Não vi toda a entrevista, mas o que vi me deu engulhos. Em nenhum momento consegui ver Jesus nos olhos, palavras ou atitudes da moça. Não vi, em seus belos olhos delineados com maquiagem de primeira, o brilho da espontaneidade de pessoas tocadas pela misericórdia do Senhor que, ao perceberem o ato divino, entendem-se mais humanos e mais alertas contra a tentação de se verem como parte da divindade, como foi a tentação da serpente contra Eva e que agora é repetida ad nauseaum. O que vi foi apenas um triste teatro querendo passar a virtude triunfalista e alter-humana de Baal, ao afirmar que não possui medo, pois este é apenas o último obstáculo a ser vencido na caminhada para o sucesso.

Mas a cereja do bolo estava no final. Num rápido bate-bola, Marília Gabriela faz a derradeira pergunta: “Aline Barros por Aline Barros”. Depois de revirar os olhos, ela simplesmente diz: “sou uma princesa de um reino eterno de amor”. Pois é, além de Baal desumanizar seus servis colaboradores, ainda os faz pensar que estão em algum tipo de conto de fadas. Talvez seja uma reminiscência da Xuxa, aquela cantada como “minha rainha, minha fada madrinha” anos atrás pela própria Aline, ou talvez seja uma referência a She-Ra, personagem icônico de grande parcela da população, especialmente da parcela de fãs GGs da cantora.

Enfim, Jesus disse que a boca fala daquilo que enche o coração, e Freud disse que ato falho é aquilo que nosso inconsciente nos faz dizer mesmo quando tentamos encobrir conscientemente. Aline Barros, a She-Ra do “mundim góspi” tupiniquim, comete o ato falho de se revelar como habitante de uma terra de faz-de-conta, de fantasia, onde há um “arco-íris de energia”, revelando um coração transbordante de irrealidade. Mas na terra de fantasia não há espaço para o Verbo, que não é fantasia, mas sim real. Na ilusão não há lugar para o despertamento causado pelo verdadeiro amor do verdadeiro Deus. Enfim, no castelo de faz-de-conta desumanizante e desumano da engrenagem gospel, não há lugar para o trono do verdadeiro Rei.