Blog do Digão


The end
17/10/2013, 4:11 pm
Filed under: Genizah Virtual, geral, igreja, Pastorado de verdade, Ultimato, vida de gado

the-endTudo na vida acaba. Coisas boas, coisas ruins. Até a vida acaba. E este blog acabou. A gente se vê por aí.

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Ô canseira!
30/07/2012, 7:13 pm
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Há poucas semanas atrás, vimos o espetáculo deprimente de uma dondoca abandonada pelo marido soltar toda sua amargura em rede nacional, acusando-o de macumbeiro – como se ela, à época das trevas do poder de seu ex-marido, também não tivesse se beneficiado dos resultados dos feitiços. Rosane Malta (ex-Collor) foi uma das responsáveis, se não a maior, pela quebra da finada LBA (Legião Brasileira de Assistência), órgão federal que deveria se voltar ao cuidado dos pobres, mas que não resistiu à sanha por dinheiro da ex-dama de Canapi. Como se receber R$ 18 mil de pensão fosse coisa vergonhosa, ela teve a cara de pau de desfiar sua inveja por uma amiga que recebe R$ 40 mil de pensão do ex, querendo algo parecido para si. O mais deprimente é ver que esta senhora, que tanto nos envergonhou no passado (quem não se lembra de suas gafes homéricas?), continua a nos cobrir de vergonha no presente, ao usar surrados jargões religiosos, como “jesuscidência”, que me fazem lembrar da Valnice Milhomens em um dia ruim.

Nesta semana, minha esposa me chama a atenção para um programa televisivo que apontaria para a votação do maior brasileiro de todos os tempos. Noves fora a pretensão e a falta de objetividade de um programa desses, tive que me sentar ao ver que, no meio dos elencados, estão RR Soares, Valdomiro Santiago, Edir Macedo e Silas Malafaia. Desses, apenas Romildo Ribeiro não foi mais lembrado que d. Hélder Câmara, que desempenhou papel profético muito mais relevante que os quatro cavaleiros do apocalipse evangélico tupiniquim. Nem vi menção, inclusive, a Miguel Reale, jurista que muito contribuiu para o entendimento e a aplicação do Direito por aqui. Se bem que, na companhia de Xuxa, Michel Teló e Luan Santana, é melhor nem aparecer mesmo…

Eis que, ontem, vi o vídeo em que uma garota de programa é praticamente achacada por um bispo da Universal, que pediu para ela, em troca da “decretação da cura” de um problema no fígado, sua contribuição para a construção do templo de Salomão, o que ela prontamente ofereceu, através do fruto da venda de si própria. Nenhuma palavra sobre a santidade do corpo. Nem mesmo aquela sanha pseudo-moralista que alegra hipócritas que, em suas neuroses e distorções de caráter, confundem comportamento moral com posicionamento político-ideológico, chamando todos os opositores de coisas absurdas. Não se tocou na questão da dignidade da pessoa humana. Nada foi dito sobre o verdadeiro templo do Senhor, que é o corpo do cristão. Nenhuma palavra de evangelização para uma moça que está francamente clamando por socorro. Não foi dito nada acerca do amor de Jesus por cada um de nós. Apenas a ênfase de que, se construíssemos a casa de Deus, Ele nos faria ricos.

Esses casos gritantes e aberrantes se mesclam às cotidianas pequenas decepções com gente que acha que servir a Deus é o mesmo que ser CEO (Chief Executive Officer) em uma empresa religiosa que usa o nome de “igreja”, ou que, abandonando os irmãos feridos à beira do caminho, está se mantendo puro e intocado para o seu “Noivo” (essa novilíngua evangélica de hoje beira o sexismo gay!). Tristezas com gente capaz de recitar os cinco pontos do calvinismo, ou talvez os pontos remonstrantes, mas incapaz de viver além do próprio umbigo. Esse caldo grosso e insalubre de religiosidade tóxica empesteia o ar em redor e envenena o coração. E é esse caldo grosso, e não a Graça do Crucificado, o que tem sido apresentado nos púlpitos brasileiros, em sua maioria.

Isso me faz chegar a algumas conclusões: 1) o protestantismo que aqui chegou no século XIX já morreu e foi enterrado em vala de indigente, pois nem chegou a ter um funeral digno; 2) o que se chama de “evangélico” nada mais tem a ver com o Evangelho, mas antes é uma manifestação cultural tipicamente brasileira, pródiga em misturar elementos a princípios conflitantes e, a partir desta dialética doutrinária, criar novas fés – o candomblé é o maior exemplo disso, com sua mescla de elementos do catolicismo e da umbanda; e 3) as doutrinas da Graça, tão preciosas para aqueles que vieram antes de nós, foram substituídas pelos frutos mais agressivos do individualismo. Ou seja, o espírito do mundo, contra quem João tanto nos alertou (1Jo 2.15-17), é hoje o paradigma existencial de grande parcela de brasileiros que afirmam amar a Deus.

Em outros tempos eu me descabelaria. Hoje o máximo que isso me dá é uma enorme canseira e enfado. Afinal, é um sistema alienado e alienante que subverte vidas. Mas também este enfado me dá paz. Paz porque o Senhor conhece os Seus (2Tm 2.19), que não se envolvem nessa coisa toda. Paz porque o julgamento purificador está próximo (1Pe 4.17), e as máscaras vão cair. Paz porque sei que meu Redentor vive (Jó 19.25), e um dia essa bandalheira toda se findará. Mas, até lá… ô, canseira!



O milagre da incredulidade
28/05/2012, 7:36 pm
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Hoje em dia, vejo que o que chama a atenção do pessoal das igrejas é a questão do milagre. Não que eu descreia na existência deles, mas acho que essa ênfase nos milagres muito ruim. Afinal, se as pessoas estão num caminho de milagres que hoje vai chegar, qual o destino final deste caminho?

Lendo a Bíblia, especialmente os Evangelhos, é espantoso como Jesus foi parcimonioso em relação aos milagres quando estes se referiam aos Seus discípulos. Tudo bem que a sogra de Pedro foi curada (Mt 8.14, 15), e o Senhor andou por cima das águas para Se encontrar com os discípulos em meio a uma grande tempestade (Mc 6.45-52); mas, com exceção destes, não sei de nenhum outro milagre feito para os discípulos.

Em compensação, vemos um monte de milagres direcionados para pessoas de fora do círculo de intimidade de Jesus: água transformada em vinho (Jo 2.1-12), demônios expulsos (Mc 7.24-30), pessoas mortas ressuscitando (Lc 7.11-17), leprosos ficando limpos de seu mal (Lc 17.11-19), pães e peixes multiplicados que alimentam uma grande multidão (Mt 14.13-21), gente doente ficando sã (Mc 7.31-37).

Ao que parece, o discípulo Filipe entrou nessa onda de milagres. Enquanto Jesus confortava seus discípulos, pois a hora de Seu sacrifício estava chegando, Filipe disse ao Senhor que ficaria satisfeito só em ver milagrosamente o Pai (Jo 14.8). Jesus lhe deu uma resposta que serve para todos nós hoje: quem vê a Mim vê o Pai (Jo 14.9).

Ou seja, a razão da pouca quantidade de milagres entre os discípulos é que eles já tinham o melhor de Deus (que já veio, não está por vir), que é o próprio Jesus. Já as multidões, que não tinham a convivência com o Senhor, tiveram que se contentar com o pequeno paliativo dos milagres.

Sim, creioem milagres. Mascreio também que há algo maior que se esconde por trás desta questão, que é a incredulidade. John Stott certa vez afirmou que a ênfase que alguns dão ao dom de cura é uma cortina de fumaça para a falta de fé. Afinal, o Deus que cura doentes é o mesmo que manda maná do céu ou levanta mortos do túmulo, mas não vejo ninguém pedindo para cair pão celestial… O mesmo se dá em relação aos milagres: como o relacionamento com Jesus envolve fé, amadurecimento e, consequentemente, tempo, compromisso e mudança de vida, muita gente descobriu um paliativo religiosamente aceitável, que é a busca frenética por milagres.

Enfim, não nego a realidade dos milagres. Eles atestam a intervenção externa de Deus em um sistema aberto, que é nosso universo. Mas Deus já providenciou algo melhor. Em vez de ações pontuais, externas e isoladas, temos a presença (interna) constante de Jesus, que prometeu nunca nos abandonar (Mt 28.20). E isso, definitivamente, é muito melhor do que qualquer milagre.



Medievalices
28/05/2012, 5:18 pm
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Agostinho (354-430) nasceu em Tagaste, no norte da África, onde atualmente fica a Argélia. Teve uma vida dissoluta, mesmo para os padrões de seu tempo. Envolveu-se com várias mulheres, chegando a ser um pai “avulso”. Também envolveu-se com os maniqueístas, seita de seu tempo que entendia que o universo era regido por duas forças antagônicas (bem e mal) de igual força e potência. Tendo viajado à Itália, a contragosto de sua mãe cristã, Mônica, abandonou o maniqueísmo e abraçou o ceticismo neoplatônico, mas logo encontrou-se com Deus, ouvindo Sua voz enquanto passeava em um jardim.

Sua conversão influenciou não apenas sua geração (para usar um jargão da moda), mas também a nossa. Ele foi o responsável pela “dessatanização” da filosofia em seu tempo, especialmente Platão. Ajudou a formatar o pensamento ocidental, a teologia, a filosofia e o direito. Debateu contra a heresia de Pelágio, que afirmava que a salvação podia ser produzida por Deus com a ajuda do homem, e venceu a disputa. Foi o último dos chamados pais latinos da Igreja, e também o maior deles. Seu pensamento também ajudou grandemente a Reforma Protestante (Martinho Lutero era monge agostiniano), que brotou cerca de mil anos após sua morte. Se você entende que somente a graça de Deus é capaz de redimir o homem de maneira sobrenatural, ou que o homem é irremediavelmente corrompido pelo pecado, agradeça a Deus pela vida de Agostinho.

Agostinho foi a “porta de entrada” da chamada Idade Média, assim como Tomás de Aquino foi sua “porta de saída”. A Idade Média viu florescer absurdos como o papado absolutista e a Inquisição, fruto direto desta, como também a sede desmedida por dinheiro através da venda de indulgências. Viu também o florescimento de crendices e superstições por parte de um povo que não era instruído na Palavra. Mas viu também homens e mulheres santos como João da Cruz, Teresa de Ávila, Jan Hus, Francisco de Assis, Girolamo Savonarola e John Wycliffe, além dos próprios citados Agostinho e Aquino. Foi na Idade Média que também surgiram centros de preservação do conhecimento, os mosteiros, que deram nascimento às universidades.

Por tudo isso vejo como desonestidade histórica e intelectual a peroração de Ricardo Gondim ao afirmar que deveríamos rever o conceito “medieval” de salvação. A picaretagem teológica do arauto do teísmo aberto agora quer atingir o cerne da mensagem bíblica. Enfim, para quem afirmou carnavalescamente que não quer mais se identificar como evangélico, mas segue sendo pastor de uma igreja evangélica, ou questionando a influência dos estadunidenses no ethos evangélico brasileiro mesmo devendo sua formação teológica a uma instituição estadunidense, coerência não é mesmo um referencial.



Um conto de fadas
10/05/2012, 1:05 pm
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Há um novo seriado na TV fechada (e através de downloads) muito bom, chamado Once upon a time – em português, Era uma vez. Apesar de parecer bobinho à primeira vista, torna-se cativante à medida que sua mitologia interna se desenrola: nas histórias de contos de fada, Branca de Neve está para dar à luz a uma menina, e esta criança salvaria todo o reino mágico de uma maldição lançada pela Rainha Má. Esta maldição se concretiza ao trazer todos aqueles personagens – Branca de Neve, Príncipe Encantado, os Sete Anões, Cinderela, etc. – até nossa realidade sem nenhuma magia. Além disso, eles vivem entre nós completamente desmemoriados, com uma vida simples e comum – Branca de Neve é professora de crianças, o Caçador é o xerife, o Grilo Falante é o psicólogo local, e por aí vai. Acontece que o que faz a série ser cativante é a complexidade dos personagens, nunca antes vista: o Espelho Mágico seria, antes, um gênio da lâmpada que se apaixonou perdidamente pela Rainha Má, e foi aprisionado no espelho como punição; a Rainha Má também sofre com suas maldades, que são fruto parcial de uma falha de caráter da Branca de Neve; o Príncipe Encantado é, na verdade, um impostor; e nem vou falar quem é verdadeiramente o Lobo Mau para não estragar a surpresa.

Quando lemos a Bíblia, ela nos revela que os personagens históricos ali retratados eram tudo, menos seres unidimensionais: o rei Davi, homem segundo o coração de Deus, era péssimo pai, péssimo marido e péssimo governante, mas ainda assim arrependia-se de seus pecados; o profeta Jeremias, chamado por Deus para anunciar Sua Palavra ao povo, sofria crises existenciais e de fé terríveis no cumprimento do dever; Jonas, chamado a pregar em uma cidade estrangeira, decidiu fugir para não ter que cumprir sua vocação, que foi, relutantemente, cumprida após a experiência com o peixe; Paulo, apóstolo enviado aos gentios, tinha um passado assassino que não fazia questão de esconder, amparando-se, contudo, não na própria experiência, mas na Graça; Marcos, posterior discípulo de Pedro e um dos evangelistas, foi, no passado, um “boyzinho” e o motivo da cisão entre Paulo e Barnabé; Pedro, o primeiro líder da igreja, comportou-se de maneira reprovável na igreja da Galácia; Jesus, nosso Senhor e Deus, sofreu fome, sede, teve crise depressiva e ficou muito bravo com o mercantilismo religioso de Seu tempo.

A igreja evangélica brasileira, que hoje em dia é qualquer coisa menos verdadeiramente evangélica, tem reduzido a multidimensionalidade humana a uma triste unidimensionalidade. Qualquer traço de diversidade de dimensões e experiências é logo rechaçado. Segundo a mensagem pagã que infesta os palcos das performances dominicais e infecta a alma do povo, qualquer outro destino que não seja a vitória, o sucesso e a vida regalada deve ser negado, a não ser que, numa mistura de epicurismo com hedonismo, o sofrimento pode ser permitido se trouxer um prazer (material) enorme ao seu fim. A mensagem pagã propagada nos hospícios que já se chamaram igrejas nada fala sobre real adoração a Deus, mudança de caráter, pecado ou arrependimento; em vez disso, transforma seus ouvintes em meros participantes de um festejo a Baal, que era o deus fenício da prosperidade, ou Baco, seu equivalente romano. Como os cultos a Deus, que prezam pela santidade e reverência ao Seu nome, foram trocados por verdadeiros bacanais palatáveis à classe média, pode-se fazer tudo, desde “trenzinhos” até mesmo surtos catárticos.

Jesus se tornou gente para que pudéssemos viver nossa humanidade para Sua glória. Mas Baal, o deus deste século e de grande parte da igreja evangélica, quer retirar a humanidade de circulação de nossas vidas, uma vez que ela reflete a obra de Deus. Tornando-nos personagens de contos de fadas, onde o final feliz é garantido no fim, glorificamos, mesmo, é apenas ao nosso ego doente. E ao próprio Baal.



No Princípio
08/05/2012, 5:37 pm
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No Princípio era o Verbo. O Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele é a razão da existência do universo; sem Ele, nada do que existe hoje existiria. O Verbo é a luz dos homens; feito gente, o Verbo habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a Sua glória, a glória do Unigênito do Pai. O Verbo sofreu nossa morte para que vivêssemos Sua vida e nos chamou para sermos filhos do Pai.

O Verbo foi pregado, proclamado, vivido, testemunhado. Por causa do Verbo, muitos sofreram mortes atrozes, como Jon Huss, ou foram duramente perseguidos, co-mo Wycliffe. O Verbo foi traduzido para a língua do povo, como fez Lutero, para que o povo tivesse conhecimento do Verbo. O Verbo impulsionou servos para fora de sua zona de conforto, trazendo-os a terras de gente com uma língua estranha aos seus ouvi-dos, como o português. Pentecostais, como Gunnar Vingren e Daniel Berg, ou históricos, como Robert Kalley e Ashbel Simonton, deixaram tudo para trás para viverem o chamado do Verbo no Brasil. Católicos, como Francisco Xavier, e metodistas, como Hudson Taylor, foram para a Ásia (Japão e China, respectivamente) atendendo ao chamado do Verbo.

Mas hoje não é mais o Verbo. Hoje é a Emoção. Ela toma conta de tudo. É o paradigma existencial de um crescente grupo social que se denomina “evangélico”, mesmo que o Evangelho lhes seja apenas uma pálida sombra de algum tempo imemorial. O Verbo precisa ser examinado, meditado, pensado; já a Emoção, como o crack, tem efeito imediato; e, como o crack, exige cada vez mais uma dosagem maior.

A Emoção deixa o Verbo de lado, ou então manipula o Verbo ao seu bel prazer. A Emoção não se furta de fazer com que seus pregoeiros se ridicularizem na frente de uma congregação confortavelmente anestesiada, mandando beijos para alguma entidade mítico-cósmica a quem chamam de “Jesus”, apesar de não guardar nenhuma semelhança com o Jesus da história e da fé. A Emoção traz euforia plena e imediata; ao contrário do Verbo, a Emoção não exige arrependimento, mudança de vida ou conversão; apenas um salto de fé kierkegaardiano e um embotamento de todo senso crítico que possa com-prometer o mistério da Emoção que se desenrola. A Emoção seqüestra os significantes da fé protestante e lhes atribui novos significados, sem que haja protesto. Se para Descartes o axioma básico era “penso, logo existo”, para a Emoção e seus seguidores o pa-radigma é “Fico eufórico, então que se dane o resto”.

No Princípio era o Verbo. Hoje é a Emoção. Mas não vivemos no Princípio. Vivemos no Fim.



Ilari-ilariê, aleluia
02/04/2012, 6:07 pm
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Beijinho, beijinho, ô grória!

Recentemente, a senhora Maria da Graça Meneghel veio à baila novamente. Certa apresentadora de TV faria uma homenagem a Airton Senna, falecido piloto brasileiro e o último de sua espécie (a não ser que você leve o Barrichello a sério). Porém, esta homenagem não poderia ser completa, uma vez que o nome de Meneghel, antiga namorada de Senna, não poderia ser citado, já que esta se encontra em litígio judicial contra a emissora de TV por ter veiculado fotos suas em que ela aparece desinibidamente na revista Playboy.

Pois é, este é um grande paradoxo da nossa cultura brasileira: Meneghel, que é mais conhecida por seu apelido infantil de Xuxa, despontou na sua carreira de modelo como uma espécie de furacão sexual. Namorou Pelé (o responsável pelo seu estrelato), posou pelada inúmeras vezes, estrelou um filme em que simula sexo com um ator que à época tinha 12 anos (“Amor estranho amor”), começou a apresentar um programa de TV na antiga Rede Manchete onde as roupas eram mínimas, bem como sua paciência com as crianças (seus esculachos com a meninada ficaram famosos). Seu sucesso (e a ajudinha de Pelé) a levaram à Globo, onde até hoje se encontra. No auge do seu sucesso, chegou a protagonizar cenas lamentáveis, como o incentivo a crianças a fazer a dança na boquinha da garrafa. Carla Perez (aquela do “i de iscola”) chegou a declarar que Xuxa foi seu grande modelo. Hoje, depois da maternidade, Xuxa encaretou e quer apagar seu passado de erotismo infantil, recorrendo aos meios legais possíveis para isso.

Enfim, uma legião de meninas (e alguns meninos aboiolados) foi diretamente influenciada por Xuxa e seu tratamento distorcido do sexo. Isso não poderia ser diferente no meio evangélico, apesar da intensa pregação em meios fundamentalistas contra a apresentadora, que chegou a ser até mesmo satanizada – quem não se lembra dos boatos de que ela seria adoradora de eXU e XAngô, o que teria originado seu apelido? Obviamente não sei de casos de crianças filhos de crentes que dançaram na boquinha da garrafa (mas não duvido que tenham ocorrido casos assim); afinal, sexo e sexualidade sempre foram assuntos malditos dentro do sistema religioso em que muitos vivem. Mas é claro que, como membros de uma sociedade adoecida, muitos jovens evangélicos foram atingidos pelo erotismo infantil de Xuxa.

Eu sempre pensei sobre a razão de muitas cantoras de grupos evangélicos cantarem de modo extremamente sensual. Algumas (e alguns) artistas gospel cantando e gemendo “Paaaaaaaaaaaiiiii…” me trazem arrepios – certa vez ouvi uma apresentação, em CD, de determinado expoente gospel em que não sabia se o sujeito estava tendo um AVC ou um orgasmo (talvez os dois ao mesmo tempo). Também sempre achei estranho como até mesmo cantores homens ficarem cantando “eu sou do meu amado”, numa clara falta de contextualização de Cantares, abrindo caminho para todo tipo de interpretações homoafetivas, além de alguns dançarem feito bambis sob efeito de LSD. Sei que apenas a influência da Xuxa não é suficiente para um quadro desses. Há de se pensar também no evangelho rarefeito que é ensinado hoje em dia por aí, misturado com dicas de bem estar e autoajuda – dependendo da igreja que se freqüenta, um manual do SEBRAE edifica mais. Essa insistência de querer mostrar o membro de igreja sempre como o “vencedor” está criando uma geração de mimados e desajustados para a vida. Mas sei que, além desses ingredientes, ainda faltava algo para explicar o atual quadro de descalabro litúrgico brasileiro.

Como Deus é bom e Sua misericórdia dura para sempre, Ele me mostrou um terceiro componente nesta equação erótico-espiritual. Caiu em minhas mãos um pequeno livro de Anselm Grün, monge beneditino alemão que está tendo bom espaço entre os católicos. E sua aceitação se deve aos seus méritos, pois é um bom escritor na área da espiritualidade cristã. Lendo seu livro “Espiritualidade e entusiasmo” (Ed. Paulinas), me deparo com algo que me esclareceu sobre nossa liturgia. Fazendo um pequeno histórico sobre o desenvolvimento da mística na história, ele descreve aquilo que é chamado de “mística do amor”, um tipo de espiritualidade que se desenvolveu na Idade Média. Diz-nos Grün:

 

Na mística do amor – sobretudo na mística feminina da Idade Média –, trata-se do amor a Jesus Cristo, ou do amor de Deus, que se aproxima do homem de uma maneira feminina, antes da forma masculina. A mística do amor praticada pelas beguinas – mulheres que, sem pronunciar votos, viviam livremente em grupos espalhados nos Países Baixos e na Bélgica, nos séculos XIII e XIV –, era sobretudo uma mística nupcial. Para elas, Jesus era o noivo que abraça a pessoa mística. Essas místicas falavam sobre suas experiências numa linguagem erótica. Nisso era muito apreciada a interpretação do Cântico dos Cânticos do Antigo Testamento. (…) As místicas falam sobre o namoro divino, em que podem alegrar-se da proximidade de seu noivo divino. (…) a união com o Amado nunca é um fundir-se ou dissolver-se; é um “doce abraço” ou um “beijo espiritual” (p. 44, 45 – grifo meu).

Portanto, este é o terceiro elemento que faltava: a erotização do louvor conforme praticado pelas beguinas na Europa medieval. Como a igreja evangélica brasileira atravessa um período de obscurantismo comparado muitas vezes ao da Idade Média (mas sem as influências de S. Agostinho, S. Tomás de Aquino ou das nascentes universidades), parece que estamos em casa…

Sei que a Bíblia me diz que meu relacionamento com Deus envolve, também, a parte afetiva, emocional (Mt 22.37). Sei também que os calvinistas, de modo geral, precisamos tomar cuidado com uma espécie de embotamento emocional que pode advir de estudos teológicos malfeitos e vivências eclesiais falhas. Mas nada, absolutamente nada, me autoriza a ter um relacionamento amoroso com Deus com base no erotismo. A dimensão erótica deve ser vivenciada entre um homem e uma mulher no matrimônio; com Deus, a dimensão do amor é o ágape, e envolve casados, solteiros, eunucos, crianças, adultos, etc., em um relacionamento vivo, verdadeiro e pessoal com o Eterno. Cantar para Deus “abraça-me”, ou entoar um mantra dizendo que está “doente de amor”, é fugir completa e totalmente do sentido do amor de Deus revelado em Cristo nas Escrituras, esbarrando perigosamente no risco de se adorar um deus alheio à revelação bíblica.

Uma geração que cresceu assistindo aos programas da Xuxa entoa canções amorosas pretensamente voltadas a Deus, mas usando conceitos e categorias de pensamento próprias de um relacionamento puramente humano, chamando isso de louvor, com grande aprovação do povo, que compra seus CDs e DVDs e alimenta a máquina. Uma liderança eclesial que falta com sua obrigação de ensinar o povo acerca da pura e verdadeira Palavra de Deus, preferindo repassar conceitos de empreendedorismo, vitória a qualquer preço e estímulo ao ego; uma mentalidade intensamente hedonista, marca de nosso tempo, que se torna presente com toda força através de um misticismo medieval em que o erótico se confunde com o metafísico. Esta é a estrutura que mantém a indústria de entretenimento gospel brasileira, e porque não dizer, mundial.