Blog do Digão


Deixei de ser evangélico
09/05/2012, 1:10 pm
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Sem o menor sentimento de culpa admito que me tem sido coisa rara a afirmação “sou evangélico”. Nem sempre foi assim. Houve tempos, já escondidos pela névoa do tempo, nos quais eu sentiria santo orgulho de tal identificação: que saudades! O tempo não para, dizia o poeta. E o tempo passou, sem muita poesia, assassinando poetas, e consagrando, quase sempre, gente cuja poesia maior é dedicada a ídolos. Nos esquecemos da primeira regra do Decálogo: adoramos personalidades, a nós mesmos, o sucesso, o dinheiro, o poder, os títulos eclesiásticos… Diante de Deus, nós, e nossos muitos deuses.
Recentemente questionaram qual minha opinão sobre o Padre Fábio de Melo, o cabeleira de gel, sem batina, que vive dizendo que tudo é “liiiiindo!”, ter dito: “Eu também sou Evangélico!”. Não deixa de ser uma declaração bonita e, quiçá, fruto de algum amadurecimento proporcionado em tempos pós Vaticano II. Tudo muito “liiiiiiindo!”. Admitamos, por mais anti-catolicos sejamos, nada é tão prazeiroso que ouvir um padre reconhecendo que a salvação é por Graça, e que nossa missão principal é anunciar o Evangelho de Cristo. No entanto, creio que o padre precisa dar uma atualizada na cabeleira, já que a idéia que ele tem sobre o que é ser “evangélico” está defasada há, no mínimo, uma década e meia! Atualmente, ser evangélico pode significar qualquer coisa, o que nos leva a significado nenhum. Eis o grande mal dos evangélicos de nosso tempo: crise de identidade. A única coisa que o evangélico mediano parece saber sobre si mesmo, via de regra, inclui: que sua denominação é, em algum sentido, melhor; que ele é filho da promessa; que ele tem o selo da promessa, e que apesar de não ser dono do mundo, é filho do Dono! Não é “liiiiindo, minha gente”?
Assim, minha primeira razão para deixar de ser evangélico está no fato de que essa gente, os evangélicos, não sabe o que ser evangélico significa. Pergunte a maioria de seus amigos evangélicos: o que é o evangelicalismo? Qual sua origem? Quais seus postulados? Faça um teste, e comprove: quase absoluta ignorância. Somos uma geração que nada sabe sobre os Grandes Depertamentos, ou sobre nomes consagrados de nossa tradição evangélica, como Jonathan Edwards, John Wesley, Charles Finney, Dwigth L. Moody, etc. Nem mesmo o contemporâneo Billy Granham escapa imune a nossa ignorância crônica. Aliás, o Billy só volta ao imaginário dos “gospi” quando algum aloprado escatólogico faz malabarismo para associá-lo a sociedades secretas, e a complôs promotores do Anticristo… Em contrapartida, sabemos tudo sobre espiritos territóriais, ex-satanistas, ex-noivas-do-Capeta, símbolos satanistas ocultos, pregadores-sem-língua, maldições hereditárias, e, claro, campanhas de Sementes, com Bíblias superfaturadas.
Por falar em Bíblia, eis minha segunda razão para deixar de ser evangélico: somos um povo ignorante das Escrituras, e da Teologia! Não só isso, além de ignorantes, temos orgulho do fato! Dia após dia, cresce a idéia de que um cristianismo realmente bíblico, que segue o modelo da Igreja Primitiva, é um cristianismo anti-intelectual. Canonizamos a ignorãncia. Tal blasfêmia sempre esteve presente, com honrosas excessões, na religiosidade pentecostal (de onde eu venho), mas não é privilêgio apenas daquele grupo, infelizmente. Mas, como pentecostal de berço, vou me ater ao que diz respeito a minha experiência mais imediata. “Igreja do Senhor!” – esbraveja o falastrão: “eu tinha um sermão prontindo para vocês esta noite; porém, quando eu chegei neste lugar, o Espírito Santo mudou tudo – fez aquele rebuliço! Por isso, quero lhes dizer que tenho uma mensagem vinda diretamente do céu para vocês! Hoje, eu não quero nada com Teologia: Deus vai falar diretamente com você!”.
Só tem um nome para isso: apologia da burrice. Atitude que não encontra nenhum paralelo no exemplo deixado por Jesus Cristo: “E, começando por Moisés, e por todos os profetas, explicava-lhes o que deles se achava em todas as Escrituras” (Lucas 24.27).Que ousadia têm aqueles pregadores e cristãos que desprezam o saber teológico, preferindo em seu lugar qualquer outra coisa, como experiencias e emoções! Eles se acham melhores que Cristo? Eles se consideram mais eficazes que o próprio Senhor, a quem dizem servir e amar? Do contrário, não é certo que deveriam seguir Seu exemplo? Como se atrevem a desprezar aquilo que Seu Deus valorizou?
Intimamente relacionado ao que foi dito acima, identifico minha terceira razão para deixar de ser evangélico. Aqui, um boa dose de cautela, pois estarei pisando em terreno perigoso. Inicio meu argumento com uma exemplificação: que dirá um cristão evangélico contra um cristão católico que, por exemplo, acredita em Purgatório? Resposa bem fácil: “A Bíblia não fala nada sobre um Purgatório, meu filho, acorda!”. De fato, e não falando, os evangélicos se recusam a se submterem a um dogma extra-bíblico. Sabem o motivo? É que um dos pilares do Evangelicalismo vem direto da Reforma Protestante: o sola scriptura, segundo o qual, nada do que não esteja explicitamente ensinado nas Escrituras possa ser imposto aos crentes. Mas, ironicamente, aqui nasce um problema para os evangélicos de nossos dias: quando se trata de passar suas próprias tradições e práticas pelo crivo das mesmas Escrituras, ele rapidamente se saírão com a excusa de “não julgueis para não serdes julgados”, ou qualquer imbecilidade como “cuidado, o cara é ungido Senhor; e não se deve tocar nos ungidos”. Santa hipocrisia!
Ainda sobre isto há mais a se dizer: não apenas usamos o Sola Scriptura na balança da hipocrisia, como também o elevamos a um status de ídolo cego e manco. Calvino? Wesley? Spurgeon? Agostinho? Cramer? Confisões de Fé? Livros de Oração Comum? Não precisamos de nada, nem de ninguém, só das Escrituras! Conseguem perceber o desvirtuamento, a falsidade insinuante? Inventamos a idéia de que ter a Bíblia como regra suprema de fé implica na rejeição do que Deus, por Seu Espírito, fez durante séculos de cristianismo! Porém, se alguém ousar questionar o desatino anti-biblico de algum apóstolo moderno, temos resposta rápida e eficaz: “Cuidado com a Letra, abra seu coração para o mover do Espírito!”. Nada mais nos interessa, ao menos, nada que tenha acontecido antes do nosso profeta, apóstolo ou bispa preferidos.
Admito, meus queridos, que há gente na Igreja Brasileira que ainda faz jus ao título “evangélico”. É possível que os mesmos sintam-se injustiçados com minhas generalizações. Me solidarizo, acreditem. Infelizmente, por mais triste que seja, o termo evangelico perdeu seu valor, não por si mesmo, mas pelo mau cheiro de quem não lhe soube extrair o perfume. E, cá entre nós, nada mais eficaz para despetar um moribundo que uma boa descarga eletrica no peito: ou acorda, ou bate as botas de vez!
De modo que, tomo a liberdade de me definir como “um cristão, a favor do Evangelho, mesmo que precise ir contra os evangélicos”. Peraí! Acho que isso é bem Evangélico, com E maiúsculo, não acham?
O excelente e verdadeiro texto é do mano Marcelo Lemos, e pode ser acessado aqui.


No Princípio
08/05/2012, 5:37 pm
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No Princípio era o Verbo. O Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele é a razão da existência do universo; sem Ele, nada do que existe hoje existiria. O Verbo é a luz dos homens; feito gente, o Verbo habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a Sua glória, a glória do Unigênito do Pai. O Verbo sofreu nossa morte para que vivêssemos Sua vida e nos chamou para sermos filhos do Pai.

O Verbo foi pregado, proclamado, vivido, testemunhado. Por causa do Verbo, muitos sofreram mortes atrozes, como Jon Huss, ou foram duramente perseguidos, co-mo Wycliffe. O Verbo foi traduzido para a língua do povo, como fez Lutero, para que o povo tivesse conhecimento do Verbo. O Verbo impulsionou servos para fora de sua zona de conforto, trazendo-os a terras de gente com uma língua estranha aos seus ouvi-dos, como o português. Pentecostais, como Gunnar Vingren e Daniel Berg, ou históricos, como Robert Kalley e Ashbel Simonton, deixaram tudo para trás para viverem o chamado do Verbo no Brasil. Católicos, como Francisco Xavier, e metodistas, como Hudson Taylor, foram para a Ásia (Japão e China, respectivamente) atendendo ao chamado do Verbo.

Mas hoje não é mais o Verbo. Hoje é a Emoção. Ela toma conta de tudo. É o paradigma existencial de um crescente grupo social que se denomina “evangélico”, mesmo que o Evangelho lhes seja apenas uma pálida sombra de algum tempo imemorial. O Verbo precisa ser examinado, meditado, pensado; já a Emoção, como o crack, tem efeito imediato; e, como o crack, exige cada vez mais uma dosagem maior.

A Emoção deixa o Verbo de lado, ou então manipula o Verbo ao seu bel prazer. A Emoção não se furta de fazer com que seus pregoeiros se ridicularizem na frente de uma congregação confortavelmente anestesiada, mandando beijos para alguma entidade mítico-cósmica a quem chamam de “Jesus”, apesar de não guardar nenhuma semelhança com o Jesus da história e da fé. A Emoção traz euforia plena e imediata; ao contrário do Verbo, a Emoção não exige arrependimento, mudança de vida ou conversão; apenas um salto de fé kierkegaardiano e um embotamento de todo senso crítico que possa com-prometer o mistério da Emoção que se desenrola. A Emoção seqüestra os significantes da fé protestante e lhes atribui novos significados, sem que haja protesto. Se para Descartes o axioma básico era “penso, logo existo”, para a Emoção e seus seguidores o pa-radigma é “Fico eufórico, então que se dane o resto”.

No Princípio era o Verbo. Hoje é a Emoção. Mas não vivemos no Princípio. Vivemos no Fim.



Ilari-ilariê, aleluia
02/04/2012, 6:07 pm
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Beijinho, beijinho, ô grória!

Recentemente, a senhora Maria da Graça Meneghel veio à baila novamente. Certa apresentadora de TV faria uma homenagem a Airton Senna, falecido piloto brasileiro e o último de sua espécie (a não ser que você leve o Barrichello a sério). Porém, esta homenagem não poderia ser completa, uma vez que o nome de Meneghel, antiga namorada de Senna, não poderia ser citado, já que esta se encontra em litígio judicial contra a emissora de TV por ter veiculado fotos suas em que ela aparece desinibidamente na revista Playboy.

Pois é, este é um grande paradoxo da nossa cultura brasileira: Meneghel, que é mais conhecida por seu apelido infantil de Xuxa, despontou na sua carreira de modelo como uma espécie de furacão sexual. Namorou Pelé (o responsável pelo seu estrelato), posou pelada inúmeras vezes, estrelou um filme em que simula sexo com um ator que à época tinha 12 anos (“Amor estranho amor”), começou a apresentar um programa de TV na antiga Rede Manchete onde as roupas eram mínimas, bem como sua paciência com as crianças (seus esculachos com a meninada ficaram famosos). Seu sucesso (e a ajudinha de Pelé) a levaram à Globo, onde até hoje se encontra. No auge do seu sucesso, chegou a protagonizar cenas lamentáveis, como o incentivo a crianças a fazer a dança na boquinha da garrafa. Carla Perez (aquela do “i de iscola”) chegou a declarar que Xuxa foi seu grande modelo. Hoje, depois da maternidade, Xuxa encaretou e quer apagar seu passado de erotismo infantil, recorrendo aos meios legais possíveis para isso.

Enfim, uma legião de meninas (e alguns meninos aboiolados) foi diretamente influenciada por Xuxa e seu tratamento distorcido do sexo. Isso não poderia ser diferente no meio evangélico, apesar da intensa pregação em meios fundamentalistas contra a apresentadora, que chegou a ser até mesmo satanizada – quem não se lembra dos boatos de que ela seria adoradora de eXU e XAngô, o que teria originado seu apelido? Obviamente não sei de casos de crianças filhos de crentes que dançaram na boquinha da garrafa (mas não duvido que tenham ocorrido casos assim); afinal, sexo e sexualidade sempre foram assuntos malditos dentro do sistema religioso em que muitos vivem. Mas é claro que, como membros de uma sociedade adoecida, muitos jovens evangélicos foram atingidos pelo erotismo infantil de Xuxa.

Eu sempre pensei sobre a razão de muitas cantoras de grupos evangélicos cantarem de modo extremamente sensual. Algumas (e alguns) artistas gospel cantando e gemendo “Paaaaaaaaaaaiiiii…” me trazem arrepios – certa vez ouvi uma apresentação, em CD, de determinado expoente gospel em que não sabia se o sujeito estava tendo um AVC ou um orgasmo (talvez os dois ao mesmo tempo). Também sempre achei estranho como até mesmo cantores homens ficarem cantando “eu sou do meu amado”, numa clara falta de contextualização de Cantares, abrindo caminho para todo tipo de interpretações homoafetivas, além de alguns dançarem feito bambis sob efeito de LSD. Sei que apenas a influência da Xuxa não é suficiente para um quadro desses. Há de se pensar também no evangelho rarefeito que é ensinado hoje em dia por aí, misturado com dicas de bem estar e autoajuda – dependendo da igreja que se freqüenta, um manual do SEBRAE edifica mais. Essa insistência de querer mostrar o membro de igreja sempre como o “vencedor” está criando uma geração de mimados e desajustados para a vida. Mas sei que, além desses ingredientes, ainda faltava algo para explicar o atual quadro de descalabro litúrgico brasileiro.

Como Deus é bom e Sua misericórdia dura para sempre, Ele me mostrou um terceiro componente nesta equação erótico-espiritual. Caiu em minhas mãos um pequeno livro de Anselm Grün, monge beneditino alemão que está tendo bom espaço entre os católicos. E sua aceitação se deve aos seus méritos, pois é um bom escritor na área da espiritualidade cristã. Lendo seu livro “Espiritualidade e entusiasmo” (Ed. Paulinas), me deparo com algo que me esclareceu sobre nossa liturgia. Fazendo um pequeno histórico sobre o desenvolvimento da mística na história, ele descreve aquilo que é chamado de “mística do amor”, um tipo de espiritualidade que se desenvolveu na Idade Média. Diz-nos Grün:

 

Na mística do amor – sobretudo na mística feminina da Idade Média –, trata-se do amor a Jesus Cristo, ou do amor de Deus, que se aproxima do homem de uma maneira feminina, antes da forma masculina. A mística do amor praticada pelas beguinas – mulheres que, sem pronunciar votos, viviam livremente em grupos espalhados nos Países Baixos e na Bélgica, nos séculos XIII e XIV –, era sobretudo uma mística nupcial. Para elas, Jesus era o noivo que abraça a pessoa mística. Essas místicas falavam sobre suas experiências numa linguagem erótica. Nisso era muito apreciada a interpretação do Cântico dos Cânticos do Antigo Testamento. (…) As místicas falam sobre o namoro divino, em que podem alegrar-se da proximidade de seu noivo divino. (…) a união com o Amado nunca é um fundir-se ou dissolver-se; é um “doce abraço” ou um “beijo espiritual” (p. 44, 45 – grifo meu).

Portanto, este é o terceiro elemento que faltava: a erotização do louvor conforme praticado pelas beguinas na Europa medieval. Como a igreja evangélica brasileira atravessa um período de obscurantismo comparado muitas vezes ao da Idade Média (mas sem as influências de S. Agostinho, S. Tomás de Aquino ou das nascentes universidades), parece que estamos em casa…

Sei que a Bíblia me diz que meu relacionamento com Deus envolve, também, a parte afetiva, emocional (Mt 22.37). Sei também que os calvinistas, de modo geral, precisamos tomar cuidado com uma espécie de embotamento emocional que pode advir de estudos teológicos malfeitos e vivências eclesiais falhas. Mas nada, absolutamente nada, me autoriza a ter um relacionamento amoroso com Deus com base no erotismo. A dimensão erótica deve ser vivenciada entre um homem e uma mulher no matrimônio; com Deus, a dimensão do amor é o ágape, e envolve casados, solteiros, eunucos, crianças, adultos, etc., em um relacionamento vivo, verdadeiro e pessoal com o Eterno. Cantar para Deus “abraça-me”, ou entoar um mantra dizendo que está “doente de amor”, é fugir completa e totalmente do sentido do amor de Deus revelado em Cristo nas Escrituras, esbarrando perigosamente no risco de se adorar um deus alheio à revelação bíblica.

Uma geração que cresceu assistindo aos programas da Xuxa entoa canções amorosas pretensamente voltadas a Deus, mas usando conceitos e categorias de pensamento próprias de um relacionamento puramente humano, chamando isso de louvor, com grande aprovação do povo, que compra seus CDs e DVDs e alimenta a máquina. Uma liderança eclesial que falta com sua obrigação de ensinar o povo acerca da pura e verdadeira Palavra de Deus, preferindo repassar conceitos de empreendedorismo, vitória a qualquer preço e estímulo ao ego; uma mentalidade intensamente hedonista, marca de nosso tempo, que se torna presente com toda força através de um misticismo medieval em que o erótico se confunde com o metafísico. Esta é a estrutura que mantém a indústria de entretenimento gospel brasileira, e porque não dizer, mundial.



Finalmente cruzamos a Linha do Desespero
19/03/2012, 6:03 pm
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Recentemente uma turma de autodenominados humoristas realizou um espetáculo em São Paulo, onde o humor seria calcado no preconceito. Haveria piadas sobre todo tipo de clichês: negros, gordos, gays, judeus, etc. o público, provavelmente compartilhando a mesma mentalidade resumida dos autodenominados humoristas, teve que assinar um documento comprometendo-se a não se ofender com qualquer ataque de injúria travestido de humor perpetrado naquele lugar – documento sem nenhum valor legal, diga-se de passagem. Logo no início da ocasião, um dos pseudoartistas fez uma conexão entre negros e macacos, fazendo com que o tecladista daquela apresentação, negro, se retirasse e acionasse a Polícia Militar.

Pouco tempo antes, um cartunista de certo órgão noticioso estava em um restaurante acompanhado da namorada e da mãe. Lá pelas tantas, quis ao banheiro, mas dirigiu-se ao feminino ao invés do masculino. Certa senhora, acompanhando a neta de dez anos, não aceitou a presença do cartunista, que gosta de se vestir de mulher, e este revidou aprontando um escarcéu, fazendo com que movimentos gays, em nítida falta do que fazer, o apoiassem e chamassem a todos os opositores, como sempre, de homofóbicos, apesar de o cartunista, mesmo com a maluquice se ser cross-dresser, não ser propriamente homossexual, já que namora uma mulher.

Francis Schaeffer, se estivesse vivo, certamente diria que ultrapassamos a Linha do Desespero. Na sua trilogia (“O Deus que intervém”, “A morte da razão” e “O Deus que Se revela”) ele traça um estudo sobre este fenômeno, mas restringiu seu foco sobre a Europa e os Estados Unidos. A Linha do Desespero é a passagem de uma cosmovisão teísta (mesmo que não necessariamente cristã) para uma cosmovisão existencialista pura e simples, quando nada do que fazemos, vivemos ou sentimos faz sentido; tudo se torna, como bem diz Salomão no Eclesiastes, vaidade, vazio e correr atrás do vento. Tal limite é ultrapassado quando o cristianismo se torna irrelevante devido a suas bases serem minadas.

Schaeffer identifica, tanto na Europa quanto nos EUA, o liberalismo teológico como elemento corrosivo da cosmovisão cristã naqueles dois locais. Quando se relativiza a autoridade da Palavra, ou quando engessa-se sua inspiração na gaiola da inerrância, perde-se ou desmoraliza-se por completo qualquer base autoritativa de sentido de vida que possamos ter. Afinal, é a Bíblia que nos revela Deus em Cristo; é a Bíblia que nos mostra Seu tremendo sacrifício morrendo pelos eleitos; é a Bíblia que nos mostra o terrível juízo de Deus contra o pecado.

Hoje o liberalismo teológico possui duas formas que, se aparentemente são diametrais, essencialmente são farinha do mesmo saco. Ora traveste-se de roupas finas e chiques; ora desce do pedestal e coloca chapelão de cowboy. O moderno inimigo da cruz não a ataca de forma abjetamente explícita, mas antes cita poetas brasileiros e escritores russos – podendo também se valer de uma argumentação ad hominem, em que quem profere a mensagem é a própria fonte autoritativa dela. Ambas as formas negam a autoridade das Escrituras, relativizando-a: uma de forma pseudointelectualizada, preocupada com a maneira com que a mensagem do amor de Deus pode chegar ao homem do século 21; a outra de forma atabalhoada, mas não menos voraz em seu avanço em querer tomar corações e mentes para si. Ambas as formas de neoliberalismo teológico negam o sacrifício de Cristo: uma, ao realocar o atributo do amor de Deus sobre todos os outros, inclusive sobre a soberania (que foi riscada do mapa), fazendo com que, em última análise, o universalismo soteriológico seja a única alternativa viável (concordando com o fundador da LBV, Alziro Zarur, que escreveu o “Poema ao irmão Satanás”); a outra, ao atrelar à salvação valores monetários e atitudes humanas, fazendo com que João Tetzel fique, enfim, orgulhoso por ter gerado discípulos.

Isso tudo desmoraliza o cristianismo bíblico. Se não somos mais o sal da terra, qualquer alternativa de vida se torna válida. Se Deus não existe, como bem disse Dostoiévski, tudo é permitido. Tal como Jonas, a tormenta que se abate sobre nossa sociedade é culpa nossa. Afinal, o que dizer de determinado telebaalista (“televangelista” é muita concessão!) que não desmentiu ser chamado de “Ratinho evangélico”? E isso ainda é muito injusto, já que Ratinho, no seu programa, tem momentos de lucidez, diferentemente de sua contraparte religiosa.

Nossa cosmovisão cristã se tornou peça de museu. O teísmo aberto e o neopentecostalismo são duas faces da mesma moeda existencialista, que tentam dar as cartas no cenário religioso atualmente abraçando uma cosmovisão fruto da Linha do Desespero. Sinais da apostasia que se abateu sobre nós. Que Deus nos dê graça para passarmos os dias que se avizinham!



A malignidade de Mike Murdock
12/03/2012, 7:57 pm
Filed under: igreja, vida de gado

Mistura de Clóvis Bornay e Valter Mercado

A Bíblia nos fala de gente ruim, maligna, perversa. Não importa onde esteja, essa gente sempre está pronta a destruir a vida alheia em favor da própria. São chamados de “filhos de Belial”. Em 1 Sm 2.12, Hofni e Fineias, filho do sacerdote Eli, são apresentados assim. O que é pior, a Biblia afirma que eles não se importavam com o Senhor, mesmo trabalhando no templo.

Mexendo na internet, me deparo com um post indignado. Mike Murdock, mentor de Silas Malafaia na arte de amealhar grana com o suor alheio, é apresentado como filho de belial no blog Scotteriology. No vídeo do post, é dito no início que é preciso ter “estômago forte” para ver as bobagens perpetradas por Murdock, quando ele afirma que está tendo uma sensação (vinda de Mamom, obviamente) de que, quem usar o cartão de rédito para doar US$ 1000 dólares à sua empresa religiosa (que chama de ministério), Deus apagará o valor da fatura! Assim como os filhos do sacerdote Eli, Murcodk também não se importa com Deus, apesar de sua pretensa afirmação em representá-lO.

Apesar de mostrar a mazela do lixo murdockiano, fico feliz em ver que até mesmo na terra natal do apóstata gringo há gente insatisfeita com o estado das coisas. Sinto-me, então, menos solitário, sabendo que irmãos em outros países se levantam contra esse lixo do diabo chamado de teologia da prosperidade.

Aproveitem e leiam o texto do blog Scotteriology.

Ah, quase ia me esquecendo: cheguei a este blog estadunidense através do Contorno da Sombra. Sempre é bom dar crédito a quem merece.



As ovelhas de Tashlam
01/03/2012, 2:54 pm
Filed under: geral

Escrevi este texto há muito tempo, antes mesmo de ter este blog ou participar do Genizah. Na internet só participava do site da revista Ultimato. Como o texto é bem extenso, joguei no GoogleDocs, e espero que vocês curtam. Cliquem aqui.

 



Dor de tristeza
27/02/2012, 6:02 pm
Filed under: Genizah Virtual, geral

Há dias em que, a despeito de terem acontecido coisas boas a você, vindas diretamente do Pai, você fica triste, meio chocado, com uma sensação ruim no peito.

Hoje, chegando ao trabalho, ligo o PC e leio a triste notícia que a Sociedade Bíblica do Brasil publicou a “Bíblia Apostólica”, com notas do sr Estevan Hernandes, autoproclamado apóstolo, e com introdução do Sr. Renê Terranova, autoproclamado patriarca. Mesmo sabendo que a SBB é uma empresa privada, e que em nossa sociedade capitalista o lucro é um objetivo a ser alcançado, vi que um limite, o da ética, do bom-senso e o da sã doutrina, foi ultrapassado. Puxa, a SBB é empresa privada, mas publica Bíblias! A Bíblia não pode ser fetichizada ou coisificada. Não é commodity ou debênture. Com certeza o empreendimento “apostólico” vai vender horrores neste hospício que se tornou a igreja evangélica. Mas o custo social para a SBB será altíssimo.

Logo, leio uma segunda notícia, a de que d. Robinson Cavalcanti e sua esposa morreram esfaqueados pelo filho adotivo. Acompanho d. Robinson desde minha conversão, há 23 anos atrás. Ele ajudou-me a entender melhor o mundo à minha volta. Seus escritos sobre cristianismo e política, especialmente, me fizeram entender que ser um cristão de esquerda é uma proposta válida de exercício de cidadania e fé. Seu posicionamento firme contra a avalanche ideológica do movimento gay-hedonista, seu repúdio à teologia liberal e seu alerta contra o fundamentalismo secular me alegraram por ver uma voz profética em meio ao caos religioso em que nos encontramos. Infelizmente, as drogas fizeram com que seu filho adotivo cometesse um desatino desses.

As pessoas direitas morrem, e ninguém se importa; os bons desaparecem, e ninguém percebe. É o poder do mal que os leva embora, mas eles encontram a paz. Os que vivem uma vida correta descansam em paz na sepultura (Is 57.1, 2, NTLH). D. Robinson está, com certeza, na paz do Pai. Nós, que aqui ainda militamos, e que nos chocamos com tantos desatinos cometidos em Seu nome (mas não certamente em Seu espírito), somente temos o que lamentar, a suplicar e a clamar. A lamentar, a tristeza de saber que um irmão que nos auxiliou em nossa caminhada cristã já não está mais entre nós; a suplicar, a misericórdia do Altíssimo em tempos em que a paganização do cristianismo evangélico brasileiro avança paulatinamente; a clamar, volta logo, Senhor!